Travesti vence preconceito e é a 1ª pessoa nessa situação a fazer doutorado

Desde os nove anos, João Filho Nogueira de Andrade sofre preconceito por ser "diferente". Agora, aos 31, para compreender essa rejeição, João Filho -ou melhor, Luma Andrade, como prefere ser chamada- ingressou no doutorado em educação na Universidade Federal do Ceará, tornando-se, oficialmente, o primeiro travesti a alcançar esse nível da carreira acadêmica no país, de acordo com a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Luma também é servidora concursada do Estado, na Secretaria da Educação. Coordena 28 escolas em 13 municípios do interior do Ceará.

A função permite que ela intervenha em casos como o de uma diretora que chamou os pais para reclamar que o filho era gay e de outra que queria impedir a entrada de alunos travestis que usassem batom.

"Falei que isso não era certo, que era imoral. É preciso que entendam que a própria Constituição garante o direito de todos à educação, sem discriminação", disse Luma, que sempre viveu em cidades do interior. Hoje, mora em Russas (165 km de Fortaleza).

Preconceito

O caminho de Luma, de acordo com ela mesma, tem sido bem diferente do vivido pela maioria dos travestis. Filha de analfabetos pobres, ela disse que já chegou até a receber convites para "fazer programas", mas que decidiu estudar para ajudar a família.

A primeira dificuldade enfrentada por ela foi na terceira série, quando, por só brincar com meninas, apanhou de um colega da sala. "Quando fui chorando contar para a professora, ela virou e disse: "Bem feito, quem manda você ser desse jeito?" Eu era uma criança, mas percebi, então, que ela me via diferente e que me condenava."

Gracejos e pequenas agressões cometidas por colegas a acompanharam em todo o seu percurso escolar, o que só diminuía perto das provas, quando a procuravam para que ensinasse matemática.

Formada em ciências, com habilitação em biologia e química, pela Universidade Estadual do Ceará, Luma também sofreu para conseguir ser professora. Um diretor, segundo ela, ficou um mês a espiando dar aulas, enquanto outro tentou impedir sua posse, apesar das boas notas no concurso.

Entre os alunos, também há reações de estranhamento. "É sempre um choque quando chego. Daí tento mostrar que tudo bem, sou um travesti, mas sou, acima de tudo, um ser humano, com valores."

Luma lembra que viveu um de seus piores momentos quando entrou numa escola em Tabuleiro do Norte (211 km de Fortaleza). "Entrei na quadra e começou um coro dos alunos: "Veado, veado". Cheguei a ficar com um desespero, mas vi que não podia sair, que eles não tinham culpa, e então comecei um discurso para mostrar que não importa o que cada um é."

Para Luma, o preconceito reproduzido no ambiente escolar acaba por afastar os jovens travestis da sala de aula, condenando-os muitas vezes às ruas.

Para entender esse processo de exclusão social, ela começou a pesquisar, para a sua tese, casos de travestis que freqüentam escolas públicas. Ela deve concluir o doutorado até 2012.

KAMILA FERNANDES
da Agência Folha, em Fortaleza



Escrito por Flor do Asfalto às 03h13 PM
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Posições oficiais sobre a condição intersexo segundo a Organização Internacional de Intersexuais

Sobre o Tratamento Médico

Nossas sociedades têm erigido uma conceituação binária de sexo e gênero como masculino/macho e feminino/fêmea de forma pouco natural,  que não expressa a imensa variedade que existe na natureza, tanto para sexo como para gênero. A limitação das possibilidades para apenas duas categorias estanques - o homem e a mulher - na realidade considerando os extremos como as únicas possibilidades viáveis, elimina a possibilidade de se considerar a realidade de estados intermediários que existem na natureza.

A determinação arbitrária, de fundo biológico (e simplista), de apenas duas categorias estanques, faz com que toda determinação de sexo e gênero possa passar a ser problemática, já que na realidade existem não apenas duas categorias estanques mas um continuum de possibilidades, (como toda diversidade humana). Nem os órgãos genitais, nem os cromossomos, determinam o "sexo verdadeiro" em um bebê. As gonadas, os hormonios e características internas do aparato reprodutor não são indicadores confiáveis para se determinar de forma precisa e definitiva o sexo e o gênero do menor.

Cada recém nascido nasce com uma combinação única desses fatores (entre outros conhecidos como a diferenciação do cérebro e outros ainda desconhecidos), decorrente de uma dinâmica complexa de desenvolvimento, e as combinações possíveis são muito numerosas (e nem sempre previsíveis dada sua própria estrutura), o que faz com que qualquer designação de sexo para um menor não seja mais do que uma simples conjectura.

Lutamos contra toda intervenção cirúrgica em recém nascidos com conformação genital atípica que não seja medicamente necessária (para sua sobrevivência) e lutamos pelo direito de cada menor intersexual vir a ter a oportunidade de determinar e viver sua própria identidade sexual e de gênero, assim que a possa comunicar.

Mais ainda, aconselhamos os pais que respeitem a identidade sexual e de gênero expressa por seus filhos, e façam todo o necessário para que o menor possa viver (com respeito e segurança), de acordo com sua identidade.

Depois que o menor passar a expressar claramente sua identidade sexual e de gênero, é essencial que essa identidade seja respeitada, assim pelos pais como pelos médicos e terapeutas que prestam assistência ao menor. Deve-se fazer todo o possível para apoiá-lo em sua identidade, dando-lhe acesso aos hormonios necessários na puberdade e a todos os tratamentos médicos (e cirúrgicos) para que sua vida venha a ser facilitada, conforme sua identidade expressamente determinar.

Portanto, lutamos a favor da mudança do protocolo médico vigente (na realidade propomos o seu aprimoramento e adequação às descobertas científicas mais recentes) no que diz respeito à intervenção cirúrgica (precoce à revelia da expressa vontade do paciente) e contra qualquer diagnóstico (à revelia da vontade do paciente) de disforia de gênero em indivíduos intersexuais que se sentem prejudicados por um dia terem sido designados (a revelia de sua vontade) em um sexo incorreto.

A Organização Internacional de Intersexuais - OII defende que o verdadeiro sexo do menor só possa vir a ser determinado por ele mesmo, (e só por ele mesmo de livre e espontânea vontade) a partir de suas próprias percepções psíquicas internas.

Consideramos que é um direito (inalienável) da pessoa intersexual designar seu próprio sexo e gênero sem a interferência, tanto médica como psicológica, tanto familiar como governamental, como um direito básico e fundamental da pessoa humana .

Sobre um Terceiro Sexo

A criação de uma terceira categoria para a classificação de intersexuais gera vários problemas.

Primeiro devido à dificuldade na própria definição da intersexualidade. A OII considera não ser adequada a necessidade de uma definição estrita para a condição intersexual. Não temos definições precisas do que significa ser homem ou mulher. Simplesmente, circunstancialmente, assumimos essas categorizações.

O objetivo da OII é de trabalhar em prol dos direitos humanos para as pessoas intersexuais, de forma que se compreenda que não existem apenas dois sexos como uma definição absoluta.

Existe uma diversidade praticamente infinita de possibilidades para o sexo e o gênero (dada sua complexidade e a dinâmica de seu desenvolvimento).

A criação de uma categoria específica para a pessoa intersexual corre (certamente) o risco de levar a uma marginalização (e estigmatização) de um grupo já muito pouco compreendido.

Baseamos nossos argumentos legais sobre o direito de cada pessoa viver e expressar sua própria identidade, em um sistema ainda binário, com a esperança de que venha a desaparecer qualquer motivação de impor-se a alguém uma categoria à qual sente e sabe não pertencenter, por imposições sociológicas, antropológicas, médicas ou legais. 

Para mais informações: http://www.intersexualite.org/



Escrito por Flor do Asfalto às 02h11 PM
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Transexualidade - A reinvenção do corpo


A socióloga Berenice Bento (UnB) interpreta a transexualidade fora dos marcopatologizantes. Para a pesquisadora, esta é uma experiência de conflito com as normas de gênero, usadas socialmente para classificar alguém como homem ou mulher.

 


A primeira vez que a palavra "transexual" apareceu na literatura médica foi em 1949, sob o signo de uma doença mental. Até hoje a transexualidade figura como transtorno mental na classificação de doenças da Organização Mundial de Saúde (CID-10) e na Psiquiatria (DSM). Para a socióloga Berenice Bento, pesquisadora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), não se trata de uma patologia mas de uma experiência de conflito com as normas de gênero. Em sua tese de doutorado, ?A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual?, ela analisa a experiência transexual a partir de uma perspectiva teórica divergente.


?Tento encontrar nas relações sociais os mecanismos mediante aos quais a sociedade constrói os corpos-homem e corpos-mulher?, diz a pesquisadora, cujo artigo ?Da transexualidade oficial às transexualidades? integra o livro Sexualidade e Saberes: Convenções e Fronteiras, publicado em 2004 pelo CLAM e editora Garamond.


No âmbito dos direitos humanos, embora defenda o direito à cirurgia de mudança de sexo, Berenice acha importante levar em conta outras reivindicações dos/as transexuais, tais como uma política de inclusão no mercado de trabalho, um modelo educacional não transfóbico e a possibilidade da alteração de documentos de identidade sem a necessidade da transgenitalização. ?Os sofrimentos derivados da desconformidade entre o corpo-sexuado e a identidade de gênero são enormes e os constrangimentos a que tais pessoas são submetidas, inimagináveis?, diz ela.


Nesta entrevista, a socióloga fala dessas e outras questões em torno do tema.


Em sua abordagem, a sra. propõe a necessidade de se interpretar a identidade de gênero, a sexualidade, a subjetividade e o corpo como modalidades relativamente independentes. A sra. pode explicar um pouco mais isto?


As normas de gênero definem que o homem/mulher de verdade tem pênis/vagina, deverão comportar-se ativamente/passivamente e será a heterossexualidade que dará sentido às diferenças anatômicas. Há uma amarração, uma costura, ditada pelas normas, no sentido de que o corpo reflete o sexo, e o gênero só pode ser entendido, só adquire vida, quando referido a essa relação. As performatividades de gênero que se articulam fora dessa amarração são postas à margem, pois são analisadas como identidades ?transtornadas?.


A experiência transexual põe como palco de disputa um outro campo, não mais a sexualidade e o gênero, mas o próprio corpo construído como naturalmente dimórfico. O dispositivo da transexualidade nos faz crer que as pessoas que vivem os conflitos entre corpo, gênero e sexualidade reivindicam a cirurgia de transgenitalização para terem relações sexuais normais, com os órgãos sexuais apropriados. Penso que não é a busca da heterossexualidade que os/as motivam à demandarem as cirurgias. O raciocínio lógico, norteado pelas normas de gênero, é mais ou menos assim: "Ora, se todo mulher/homem tem vagina/pênis e se todo mulher/homem é heterossexual, logo um/a transexual de verdade quer uma vagina/pênis para ser heterossexual". Isso significa que todo transexual deseja a cirurgia? Que não existe homossexualidade entre os/as transexuais? Não é verdade. São afirmações falsas. Um raciocínio retilíneo como esse desfaz-se diante da pluralidade de articulações identitárias internas à experiência transexual. Quando afirmo: "sou mulher", não revelei nada sobre minha sexualidade, não é verdade? Outra afirmação: "sou mulher e sou lésbica". Nesse caso, a minha sexualidade está em descontinuidade com as normas de gênero. Agora: "Sou uma transexual". Se eu parto do pressuposto teórico de que os sujeitos estruturam suas posições no mundo de formas múltiplas, não posso derivar dessa informação que ser transexual é igual a ser heterossexual, tampouco que implique o desejo de realizar a cirurgia. O sinal de igualdade me dá poucas pistas, daí a necessidade de pensar as modalidades constitutivas das posições dos sujeitos independente de referentes dados e naturalizados.



Em sua tese, são apresentadas as abordagens de Stoller e a de Benjamim, que propõem teorias para explicar a transexualidade e apontam os ?tratamentos? adequados. Benjamim aponta a cirurgia como única alternativa terapêutica possível enquanto profissionais da Psiquiatria ? área de Stoller ? defendem o tratamento psicanalítico da transexualidade. Que outro olhar ou leitura, fora dos marcos patologizantes e normatizadores do campo médico, podem ser propostos para interpretar as experiências dos transexuais e dos intersexos?


Na minha tese analiso a experiência transexual a partir de uma perspectiva teórica divergente a essas: tento encontrar nas relações sociais os mecanismos mediante os quais a sociedade constrói os corpos-homem e os corpos-mulher. Vejamos: antes do corpo ver a luz da vida, há um conjunto de expectativas e suposições sobre os comportamentos que irá desempenhar. E como são estruturadas essas expectativas? A partir da informação contida na genitália. As energias do futuro papai e mamãe são mobilizadas para saber qual o sexo da criança. Se menina: muito rosa, bonecas, vestidinhos, roupinha delicadas; se menino: azul, bola, revólveres, carros.


A heterossexualidade funcionaria como uma matriz que confere sentido às diferenças anatômicas. Ora, o problema é que há corpos que escapam, que fogem do controle social total. A experiência transexual é povoada por corpos que escapam, que não conseguem encontrar sentido existencial nas cartografias disponibilizadas e aceitas socialmente. Conforme afirmei, quando a criança nasce já encontra um mundo genereficado. Já nascemos todos cirurgiados.


Quando um pessoa afirma ?quero reconstruir meu corpo, quero uma cirurgia de transgenitalização?, está afirmando implicitamente que a primeira ?cirurgia?, a que definiu o gênero a partir da genitália, não foi exitosa. Dessa forma, quando localizo nas instituições sociais e nas relações sociais delas decorrentes a explicação para a gênese da experiência transexual, inverto a lógica: são as normas de gênero que possibilitam a emergência de conflitos identitários com essas mesmas normas. Esta abordagem está ancorada em estudos das Ciências Sociais que interpretam as identidades e sexualidades fora dos marcos patologizantes.



No Brasil há uma exigência para as pessoas que desejam fazer a transgenitalização: submeter-se a um período de terapia de dois anos, antes da realização da cirurgia. Os terapeutas esperam que este tempo possa demover o candidato da idéia e/ou necessidade da cirurgia. Qual o seu ponto de vista em relação a uma pessoa que queira mudar de sexo? Este tempo realmente é necessário?


Defendo a absoluta legitimidade da reivindicação do sujeito que quer reconstruir seu corpo. Os sofrimentos derivados da desconformidade entre o corpo-sexuado e a identidade de gênero são enormes e os constrangimentos a que os sujeitos são submetidos, inimagináveis. De forma geral, as pessoas transexuais começam o processo transexualizador antes de fazer parte de um programa em um hospital e já desenvolvem características corporais e performáticas do gênero identificado. Agora, quanto tempo a pessoa transexual deve fazer terapia para que possa fazer a cirurgia? Quando tempo deve freqüentar o hospital? A pergunta deve ser outra: Por quê fazer terapia? As pessoas transexuais, de forma geral, chegam aos hospitais com a certeza de que querem fazer a cirurgia. Mas essa certeza é posta em dúvida o tempo todo pela equipe médica. Ou seja, a dúvida não está com o demandante, mas com a equipe que precisa rastrear indicadores que fundamentem um parecer final. Quais os indicadores? Aqueles disponibilizados socialmente para se classificar alguém como mulher ou homem. Além das questões referentes à identidade de gênero, far-se-á uma observação minuciosa e silenciosa da forma como os/as demandantes se vestem, caminham, cruzam as pernas. Será que o tempo de terapia é realmente necessário? Qualquer estudante de psicologia sabe que o sucesso de qualquer terapia está diretamente ligado ao desejo do paciente de dar sentido a regiões nebulosas de sua vida. Ora, como impor uma terapia?



E quanto à necessidade imposta pelo Estado de, primeiro, ser diagnosticado que o candidato à cirurgia sofre de um transtorno mental, para então, poder realizá-la, numa forma de justificar o procedimento?


Devemos ter cuidado com os argumentos para justificar as cirurgias e o pagamento da seguridade social para o processo transexualizador. Já ouvi muitas pessoas transexuais argumentarem que para o Estado pagar as cirurgias deve-se continuar a considerar a transexualidade como uma doença, um transtorno. Não concordo. É uma tática perigosa. Penso a transexualidade como experiência de conflito com as normas de gênero. Para muitos transexuais a cirurgia de transgenitalização é a possibilidade concreta de ascenderem à condição humana, e o Estado deve custear o processo transexualizador. Não vejo nenhuma contradição em seguirmos lutando pela despatologização (consequentemente, a retirada da transexualidade do código internacional de doenças) e, ao mesmo tempo, lutarmos pelos direitos humanos das pessoas transexuais. É aí onde localizo a questão das cirurgias, no âmbito dos direitos humanos, mas não me limito a ela. Há um conjunto de reivindicações: políticas de inclusão no mercado de trabalho, um modelo educacional não transfóbico, o direito a mudarem os documentos de identidade sem terem realizado a cirurgia. Esse último ponto é essencial. Da mesmo forma que para muitas pessoas transexuais a cirurgia é fundamental, para outras, as mudanças do nome e do sexo nos documentos são prioritárias.



No âmbito dos direitos humanos, qual a importância dessas reivindicações?


Significa primeiramente apontar a diversidade dos gêneros e deslocar o gênero de qualquer referência biológica; reconhecer-lhes a condição de sujeitos, com capacidade de elaborar significados para seus sofrimentos, além de serem sujeitos de direitos, demandantes de políticas públicas inclusivas. Há um profundo e incômodo silêncio nas sociedades latino-americanas sobre os direitos humanos dos transgêneros. Devemos desconfiar desse silêncio. Ao mesmo tempo recebemos notícias do elevado nível de violência contra os transgêneros. Violência freqüentemente institucionalizada: policiais matam, mutilam, prendem. Quando realizam tais atos, estão respaldados pela legitimidade que as normas de gênero conferem a seus atos, normas que só atribuem humanidade aos corpos coerentes. Toda vez que uma travesti é agredida, um gay é insultado, um/a transexual humilhado/a, estamos diante da lei de gênero operando seu poder normatizador.


CLAM
Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos

    Paula Malfitanni blog: http://paulamalfitanni.blog.uol.com.br O blog menos lido e comentado da internet !!!



Escrito por Flor do Asfalto às 11h52 AM
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Homenagem do jornalista Hélio Filho para Claudia Wonder

(Publicada originalmente no "Blog do Hélio" do site Mix Brasil em 11/11/2008)

 

Eu gosto da Claudia Wonder. O primeiro contato que tive com a figura dela foi ainda bem cedo, ouvindo o CD "Dê-se ao Luxo", do Edson Cordeiro, quando tinha uns 13 anos. Em "Não se Reprima", ele cita o wondernome e coloca a imagem de Claudia no imaginário de quem ainda não a conhece. E foi assim comigo, quem era Claudia Wonder? Depois aconteceu aquilo de começar a aparecer informações sobre o que você procura, o que muitas vezes nada mais é do que você prestando mais atenção àquilo.

Aí comecei a ler mais coisas relacionadas ao mundo gay e o wondernome aparecia sempre ligado a alguma ação de prevenção ou conscientização, ou um trabalho com transexuais, um livro, um CD, performances... Fui descobrindo que Claudia tem talento e informação demais para ser classificada apenas como uma transexual que faz shows. Suas próprias apresentações no Madame Satã marcaram época por quebrar o paradigma de até então. O mais interessante é que eu não presenciei isso, mas foi tão marcante que toda boa retrospectiva da noite de São Paulo inclui esses momentos, marcantes não só para a época, como provado.

Então ela escreveu seu "Olhares de Claudia Wonder", que caiu direto na minha mão para uma leitura e posterior resenha. O texto fluído foi lido em pouco tempo, e minha admiração por ela começou a ficar maior. Todas aquelas histórias de transexuais, com seus sentimentos (coisa esquecida pela maioria das pessoas) e desejos e as reflexões wonderianas abriram minha cabeça e derrubaram muitos preconceitos que eu, infelizmente, ainda tinha.

Inclusive eu acho ridícula a hipocrisia do mundo gay. Ninguém admite que tem preconceito contra outros grupos do mundinho. Todo mundo é super tolerante, mas quando alguma fofa passa com uma roupa barata, mesmo que bonita, chovem xoxos. Ainda bem que li o livro.

Coincidência ou não, pouco tempo depois da matéria publicada encontrei pessoalmente com Claudia, que, coincidência ou não (de novo), sentou bem ao meu lado durante o desfile da grife 269. Foi tudooo ver uma travesti entrando em uma sauna, convidada pelo dono e acompanhada de outra amiga trans. Mais uma vez ela quebrava barreiras. Claudia abria seu leque enorme para espantar o calor que vinha do vapor da sauna - e da beleza dos modelos - e começamos a conversar. Uma fofa. Super educada, inteligente e agradável. Saí de lá com mais boas impressões.

Mas porque, afinal, eu decidi escrever sobre Claudia Wonder? Bom, uma figura como ela sempre merece um post, mas este tem um motivo: a música dela. Confesso que nunca tinha ouvido o CD "Funkydiscofashion". Encontrei nos arquivos do meu computador um remix de "Mulher do Balcão" que algum outro repórter deve ter baixado. Coloquei para tocar e adorei. É dançante, bem feito e tem um toque muito charmoso de submundo ao falar de bares, conquistas e dissabores. É a trilha sonora de vários locais, de muitas pessoas e de quase todo homossexual. Quase todo porque sempre tem alguém que faz questão de ser do contra.

A voz de Claudia rasga a música e avisa que o recado está dado: a mulher do balcão é perigosa, toma champagne e bebe pinga com limão. Imagino um cenário de luz frágil, uma mulher de boca carmim e vestido colado com olhos de leoa marcando sua presença. Um alter-ego de Claudia? Talvez não, talvez ela mesma, uma mulher, em uma de suas muitas histórias dentro do mundo gay colecionadas durante uma enriquecedora caminhada ao longo de anos. Conheça Claudia Wonder, você pode escolher conhecer a artista, a performer, a cantora, a escritora, a transexual militante ou simplesmente ela, que vem com todas essas em uma só. Wonderful!



Escrito por Flor do Asfalto às 09h04 AM
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CD Claudia Wonder & The Laptop Boys Recebe prêmio de Revelação da Nova Música Brasileira na Radio Cultura São Paulo

Claudia Wonder entre os produtores Eduardo Weber e Solano Ribeiro

Um misterioso urso solitário saiu numa noite de lua cheia para fazer um pedido secreto ao deus dos ursinhos. Diz a lenda que em noite de lua cheia os pedidos se realizam. Chegando a floresta, o ursinho encontrou uma grande rave, com ursos, coelhinhos, borboletas e fofos de todo tipo. Lá, foi abordado quando estava comendo um doce de padaria e acabou fazendo amizade, sem nem precisar fazer o pedido.

A história acima poderia muito bem ser a de um livro infantil, mas na verdade é mais ou menos essa a letra de 'Ursinho Misterioso', música de Claudia Wonder & The Laptop Boys que rendeu à diva underground o prêmio Cata-Vento da Rádio Cultura, em São Paulo, na categoria revelação. Ah, para os mais atentos, sim, a letra faz uma super referência ao mundo clubber, mas é lúdica e foi composta quando ela estava namorando.

Criado por Solano Ribeiro, apresentador e diretor do programa "A Nova Música do Brasil"- dedicado a produção nacional independente - e homem responsável por revelar ao país talentos como Elis Regina, Os Mutantes e Chico Buarque, o prêmio Cata-Vento tem o objetivo de contemplar o que há de melhor na cena.

O prêmio é um diploma da Fundação Padre Anchieta e um cata-vento criado pela artista plástica Valeria Lotufo.

Claudia vê esta vitoria como reconhecimento de seu trabalho e encara como um importante avanço social para o segmento LGBT. "Para quem há alguns anos atrás, foi impedida de gravar suas músicas pelo simples fato de ser travesti, conquistar esse prêmio é sinal de que alguma coisa mudando", afirma Claudia Wonder, que assim como o ursinho de sua canção não precisou fazer um pedido especial. Ganhou porque mereceu.

Capa do CD Claudia Wonder & The Laptop Boys - FunkyDiscoFashion

 

Por redação do site A Capa www.acapa.com.br


 



Escrito por Flor do Asfalto às 12h27 PM
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Escrito por Flor do Asfalto às 11h42 AM
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Travestis criam Cooperativa Têxtil
Cansados da rua, galpões podem ser a saída para a dignidade

O caso Ronaldo repercutiu também do outro lado do Rio Iguaçu. Na Argentina travestis se viram prejudicadas pelas Nuevas Ronalditas e lotaram os consultórios de psicólogos de Buenos Aires.

Como no Brasil, as travas argentinas são vistas como simbolo sexual, promíscuo e refúgio de maridos insatisfeitos com o consolo de suas esposas. Esbeltas, bravas e rocas, as porteñas se viram diante de um dilema: "Queremos ficar a vida inteira aguentando 'homens' como Ronaldo? A iniciativa recebeu o apoio de Andreia, a travesti fenômeno, que decidiu virar o jogo.

Adréia: "Fiquei atrás de Ronaldo agora quero estar a frente dessa idéia"

Depois do código de convivência da Capital Argentina, que restringiu o trabalho às praças em homenagem a hérois comunistas, as travestis passaram a ver a fonte de seu dinheiro como ato de dignidade e através do Ministério do Trabalho criaram uma cooperativa têxtil ainda sem nome.

"Somos fruto dessa sociedade... não caimos do céu maquiadas e glamurosas, perversas e promíscuas... A sociedade deve admitir que somos resultados de suas qualidades e defeitos", diz Christina Dakuschiner, uma salteña de origem boliviana e lider do Sindicato das Trabalhadoras Transexuais da Construção Civil, a Sitratracc.

A cooperativa é considerada uma vitória e, a meta, ambiciosa: Empregar no primeiro mês 30 meninas e até 2009 elevar esse número para 400 além de assumir o controle do mercado mundial da moda após a morte de Yves Saint Laurent
 
 


Escrito por Flor do Asfalto às 11h36 AM
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Mudança de sexo virtual do fotógrafo/designer Adriano Batista

Hermafrodita

De Hermes e de Afrodite o filho esbelto e amado,
de Salmacis oscula o corpo melodioso,
e a ninfa treme e ondeia o moço deslumbrado,
com um prazer que chega até a ser doloroso...

Ela – dócil, a arfar, como, ao vento, as searas...
Ele – forte, a arquejar, como, com cio, um touro...
O cabelo da ninfa inunda as duas caras,
e há beijos musicais sob essa chuva de ouro...

Enleandos um ao outro, a asa de uma mosca
não caberia não! entre esses corpos belos,
que se enroscam, sensuais, febris, como se enrosca
no tronco a vide em flor, e a hera nos castelos.

Dos dois corpos a união, entre lascivos ais,
cada vez, cada vez se torna mais completa,
e aquelas coxas cada vez se agitam mais:
uma brancas, de luar, outras rijas, de atleta...

Num doido frenesi, entrar parecem querer
ela – no corpo dele, ele – no corpo dela!
Choram, gemem, dão ais... e no auge do prazer,
começam a gritar para o céu que se estrela:

– «Ó deuses! atendei esta súplica ardente:
se é verdade que ouvis as vozes que vos chamam,
os nossos corações, fundi-os num somente,
fundi num corpo só nossos corpos que se amam!»

Chegou ao vasto Olimpo a rogativa louca;
e Zeus, o grande Zeus, cuja força é infinita,
as duas bocas transformou numa só boca,
e dos dois corpos fez um só: HERMAFRODITA!

 E. M. de Melo e Castro




Escrito por Flor do Asfalto às 09h49 AM
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Centro de Referência da Diversidade de São Paulo completa três meses com muitas atividades

Grupo da aula inaugural da Oficina de Teatro




 

Há poucos dias de completar três meses de funcionamento, o Centro de Referência da Diversidade, localizado no centro de São Paulo, já é um espaço em plena atividade. Prestando atendimento a homens, mulheres, travestis, transexuais e profissionais do sexo em situação de vulnerabilidade, o CRD possui atualmente 11 atividades em andamento.

Viabilizado a partir de uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo e a União Européia, e idealizado pela ONG Grupo pela Vidda, o CRD tem sua esfera de atuação focada na área central da cidade e é coordenado pelo Projeto de Inclusão Social Urbana - Nós do Centro. Além das diversas oficinas e grupos de apoio que existem no CRD, como o Chá Positivo, direcionado a soropositivos, a atividade mais praticada por
lá é a da responsabilidade social.

Fotos da mostra "Retratos de uma Cidade Escondida", que o fotógrado Micheal Wolf doou para o CRD

Histórias de pessoas que mudaram de vida após começarem a freqüentar o Centro já existem, e é o caso de Bebel, que chegou ao CRD no dia da inauguração. "Achei um jornal na rua dizendo que ia abrir o Centro, e vim logo no primeiro dia", diz ela, que trabalhava como diarista e fazia bicos pela cidade, mas não tinha onde morar. Após passar a freqüentar o CRD e receber acompanhamento psicosocial, Bebel readquiriu sua auto-estima e, mantendo seus trabalhos, conseguiu sair do Arsenal da Esperança, no bairro da Mooca, albergue onde dormia todas as noites. Atualmente, Bebel aluga um quarto próxiumo ao Centro apenas para ela. "A gente aqui recebe ajuda também na parte psicológica. Às vezes me sentia em depressão, e vindo aqui eu melhorava. Hoje estou ótima e sou outra pessoa", conta Bebel.

Lynderson Paiva, Assistente de Coordenação, e Claudia Wonder, Orientadora Sócio-Educativa

A travesti Limara, com 38 anos de vida e 28 de rua, saiu de casa aos 10 anos de idade, e por vontade própria. "Vim descendo de ônibius do Piauí, mas como eu tinha família, o Juizado sempre me achava e me mandava de volta prá casa. Mas eu fugia de novo", conta. Ainda fazendo programas, Limara quer a partir de agora fazer muitos cursos no CRD. "Compareço sempre de quinta, na aula de pintura, e estou me interessando ao máximo. Meu sonho é fazer um monte de cursos, para poder ganhar meu dinheiro suado", diz. "Mas eu queria mesmo que tivesse um curso de cozinha", completa.

  

Fátima Brito e Fernanda Canto, do Projeto Nós do Centro, e Érika Mota, Agente de Desenvolvimento


Como Orientadora Sócio-Educativa do CRD está Cláudia Wonder, que desenvolve também um trabalho de suporte, dando ainda mais credibilidade ao Centro junto às travestis e transexuais do centro de São Paulo. Responsável também por estabelecer um amplo canal de comunicação entre elas e o Centro, Cláudia tem trazido diversas pessoas da rua. "Não apenas temos os cadastramentos espontâneos como já realizamos muitos trabalhos de retirada de mulheres das ruas", diz.

Bebel, Limara e Rafael, usuários do CRD : Trabalhos realizados na oficina de pintura em tela.

Confira abaixo todas as atividades do CRD
Espaço Cidadão
Oficina de Moda
Oficina de Dança Afro-Brasileira
Oficina de Teatro
Cinema Diversidade
Oficina de Atividades Laborativas
Oficina de Pinutra em Tela
Chá Positivo
Grupo Terapêutico
Vídeo Debate
Oficina de Pintura em Tela

O Centro de Referência da Diversidade fica na rua Major Sertório, 292/294. O horário de funcionamento é das 13h às 22h

Matéria original do site www.mixbrasil.com.br



Escrito por Flor do Asfalto às 08h30 AM
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Museo Travesti Del Perú: luta da cidadania trans da América Latina

Por Claudia Wonder
29.05.08
Foto: Moisés Pazzianoto

Foi com iniciativa do filósofo e travesti peruano Giuseppe Campuzano que surgiu em Novembro de 2003 o Museo Travesti Del Perú. O objetivo é preservar a memória da comunidade trans, sua ligação com os outros segmentos da sociedade e, com isso, promover uma nova história do Peru. Uma pesquisa sobre a diversidade e o significado do travestismo presente na cultura peruana, que se manifesta nas artes, na festa patronal e na vida cotidiana do país.    

Campuzano conta que há quase 500 anos, os colonizadores espanhóis chegaram na América Latina e tomaram o controle do Império Inca. Antes de suas chegada, existia uma identidade indígena para pessoas que não se viam nem como homem nem como mulher. Os colonizadores proibiram essa identidade, punindo essas pessoas com o açoite e a humilhação pública. "Travesti é um termo moderno que descreve na América Latina as pessoas que transitam por gêneros, sexos e maneiras de vestir e surgiu dessa identidade reprimida. Esta repressão teve ecos em outras partes do mundo, como por exemplo, quando os colonizadores britânicos proibiram os hijras na Ásia Meridional", afirma. 

Fotos: Divulgação


A obra Maorylin é um dos
destaques do museu

O diretor do Museo Travesti Del Perú também afirma que os travestis atuais herdaram o que há de pior nos dois gêneros. Diz que nos espaços públicos, os travestis são considerados suficientemente masculinos para serem espancados pela polícia e para sustentar a família. No mercado de trabalho a discriminação significa que ser profissional do sexo é quase a



única opção para a pessoa trans. No entanto, pelo menos no Peru, as travestis estão agora se mobilizando para exigir seus direitos e expandir suas possibilidades. Uma dessas iniciativas é o Museo Travesti Del Perú .

O museu é constituído de uma exposição volante de trabalhos artísticos e peças de informação sobre travestis dos tempos históricos até o tempo presente. A mostra já foi exibida em vários parques, praças, bulevares, mercados, universidades e centros em todo o Peru, incluindo áreas onde travestis trabalham e/ou freqüentam. O espaço não celebra somente travestis. Quer mostrar que a tentativa de categorizar todas os humanos como homem ou mulher traz problemas não somente para as travestis, mas também para outras pessoas. Muita gente não se encaixa nessas categorias. Você pode ter genitália feminina, mas sua bunda ou seios pode não ser grande o suficiente para que seja considerada feminina. Você pode ter um pênis, mas a sociedade pode te deixar com um complexo de que ele é pequeno demais para você ser um homem adequado. Ou então seu corpo pode se encaixar perfeitamente no estereótipo de beleza feminina, mas você deseja viver como um homem. As categorias de sexo, como o gênero, são construídas socialmente – ao menos até certo ponto. Como acontece com o gênero, a socialização regula e reprime a diversidade de sexos. Se contestarmos a categorização de todas as pessoas como homem ou mulher, isso pode acabar com a exclusão das travestis e expandir as possibilidades de todas as pessoas.

Para isso Giuseppe Campuzano sugere que o movimento feminista agregue o movimento trans em sua luta contra o machismo. "As pessoas trans tornaram-se bode expiatório dos dois papéis de gênero e precisam ficar livres da opressão de gênero. Porém, a existência dessas pessoas trouxe novos 'insights' para o pensamento convencional sobre sexo e gênero. Portanto, as reivindicações por direitos das pessoas trans estão intrinsecamente ligadas às metas do movimento feminista. Está na hora de trabalharmos juntas para superar as dicotomias limitantes que restringem a todos nós", destaca o filósofo.

E no Brasil, como seria a condição das pessoas trans na organização da sociedade indígena local? Talvez esteja na hora de nossos antropólogos e estudiosos do movimento GLBT brasileiro empreitarem uma pesquisa a respeito, assim como Giuseppe Campusano está fazendo no Peru. Vocês não acham? 

Beijos a tod@s!
Claudia Wonder


Giuseppe Campuzano transformou o material do Museo Travesti Del Perú em um livro que você pode obter entrando em contato através do e-mail giucamp@gmail.com.

Matéria originalmente publicada no site www.gonline.com.br



Escrito por Flor do Asfalto às 09h42 AM
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   O Andrógino Divino

Parece que o mundo antigo era muito mais rico em se tratando de imaginação. Nos tempos atuais as novidades se dão sempre a partir da ciência que deixa boquiabertas pessoas comuns, mas não aquelas familiarizadas com as ciências ocultas, como a alquimia, ou com o estudo das diversas cosmo e antropogêneses.

     A figura do andrógino, metade homem, metade mulher, é hoje uma aberração. Assim como para muitos o é o nascimento de siameses, hermafroditas ou até mesmo a opção homo ou bissexual de alguém.

     Na Antiguidade, porém, o andrógino sempre significou a fusão de opostos e, em um caráter mais físico, a conjunção dos sexos. Em todas as épocas e civilizações têm havido cultos à divindades andróginas e o tema é debatido incessantemente não só por místicos das mais diferentes vertentes mas também pela psicologia e até no imaginário da moderna produção literária.

     Portanto, estudar sobre o andrógino primitivo é percorrer caminhos os mais variados. Ora estamos no terreno mitológico, ora em busca de explicações científicas. Independente de qualquer caminho tomado, a figura do andrógino quer, todo o tempo, nos falar de Amor.

     “Parece-me que os homens absolutamente não se dão conta do poder do amor”, diz Aristófanes no Banquete, de Platão. Este, diz que Eros, o primeiro dos deuses, tinha ambos os sexos e deixa que o tema seja exposto por Aristófanes. Diferente de hoje, havia três gêneros: o macho, a fêmea e o andrógino. Sua rebeldia contra o Olimpo gera a história da separação.

 “Ameaçaram os imortais de levar ao Olimpo o tumulto da guerra impetuosa (...)”, vê-se na Odisséia, de Homero. Zeus se pergunta se será preciso tolerar sua insolência ou fulminá-los e perder assim as honras e oferendas que vêm deles? Após longa reflexão, decide torná-los mais fracos. “Vou cortar cada um deles pela metade. Assim ficarão mais fracos, e ao mesmo tempo terão mais para nos oferecer, já que seu número terá aumentado. Andarão eretos sobre suas duas pernas”.

     Zeus torna a ameaça-los com um novo corte que os fariam andar em um pé só, se não se mantivessem tranquilos. Cortados ao meio, os homens têm ajuda de Apolo que fica encarregado de virar seus rostos e esticar sua pele sobre o ventre deixando só uma abertura - o umbigo - para que se lembrem do ocorrido.

     O homem, então, saudoso de sua metade, empreende uma busca por ela, desejando tornar-se novamente um único ser. Assim, os que eram homens buscam uma metade de homem, os que eram mulheres buscam uma metade mulher (e, usando o mito, são para os psicólogos e sexólogos, estes dois primeiros, os homossexuais) e, os que eram andróginos, se são agora a metade mulher, procuram sua metade homem e se são a metade homem, procuram a metade mulher. Cada um procurando unir-se à sua metade original e voltar a ser o que era.

     “Aqueles seres, que passam toda sua vida um com o outro, são pessoas que não poderiam sequer dizer o que esperam um do outro; ninguém pode crer, de fato, que seja o gozo amoroso, e imaginar que tal é a razão de sua alegria e de seu grande empenho em viver lado a lado. É outra coisa evidentemente, que quer a alma de cada um, uma coisa que ela não pode exprimir, mas torna-se o que quer e o deixa obscuramente entender”.

     A partir da história contada por Aristófanes onde se explica a atração particularmente forte do homem pela mulher, da mulher pelo homem e até das mulheres e dos homens entre si, Fernand Comte, autor de Os heróis míticos e o homem de hoje, conclui que “o amor não seria um fenômeno psicológico nem um fenômeno físico ou espiritual, mas um elo bem mais forte, inscrito no ser mais profundo do homem, uma vez que o constitui como homem. Poderíamos dizer que o amor é ontológico”.

     Mas não param em Aristófanes as referências aos andróginos. Na Babilônia, o deus Lua Sinn era invocado como “Ó, Mãe-Útero, geradora de todas as coisas, Ó, Piedoso Pai que tomou sob seus cuidados o mundo todo”.

     Assim como T’ai Yuan, mulher sagrada de antigos mitos chineses, conjugava Yang (o princípio masculino) e Yin (o princípio feminino). No taoísmo, os princípios se unem para formar o Tao manifesto.

     No budismo há representações andróginas de Bodhisattva no Tibet e na Índia. No hinduísmo, Shiva e Shakti, os primeiros deuses de certas versões da cosmogênese hindu, formavam, no início, um só corpo, na manifestação chamada Ardhanarisha, o “Senhor Meio Mulher”.

     Entre os antigos persas, Meshia e Neshiane formavam um só indivíduo. “Ensinavam também que o homem era produto da Árvore da Vida e crescia em pares andróginos, até que estes pares foram separados devido a uma subsequente modificação da forma humana”.

No Talmud e no Zohar a androginia também está explícita: O nome Adão foi compreendido como englobando macho e fêmea. “A fêmea estava atada ao lado do macho e Deus mergulhou o macho em um profundo torpor e ele ficou estendido sobre o terreno do Templo. Então Deus separou-a dele e paramentou-a como uma noiva”.

     No Gênesis, aparece de forma mais implícita: “E Deus criou o homem à sua imagem, na Divina imagem Ele os criou; macho e fêmea os criou”. A mais respeitável obra judaica sobre a interpretação do Gênesis, o Midrasb Rabbah, diz textualmente: “Quando o Sagrado, Abençoado seja Ele, criou o primeiro homem, Ele o criou andrógino”.

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A Doutrina Secreta

     Na Antropogênese, terceiro volume d’ A Doutrina Secreta, Helena Blavatsky, após várias explanações e citações de antigos textos, diz que “o ponto em que insistimos no momento é que, seja qual for a origem atribuída ao homem, a sua evolução se processou na seguinte ordem: 1º ele foi sem sexo, como o são todas as formas primitivas; 2º depois, por uma transição natural, converteu-se em um ‘hermafrodita solitário’, um ser bissexual; e 3º deu-se finalmente a separação e ele se tornou o que hoje é”.

     Como em toda a grande obra exposta por Blavatsky, as considerações são sempre seguidas de comparações entre as diversas filosofias, religiões e ciências, mostrando que, ainda que de forma diferente, elas sempre têm a mesma base e, portanto, chegam à mesma conclusão. “A Ciência ensina que todas as formas primitivas, embora sem sexo, ‘possuem, contudo, a faculdade de passar pelo processo de uma multiplicação assexual’”, e indaga, “por que então seria excluído o homem dessa lei da Natureza”?

     No mesmo volume mostra-se ainda o conhecimento da ciência sobre a origem andrógina mas sua repulsa a essa idéia. Vale a pena citar este texto.

     “Os hermafroditas humanos primitivos são um fato da Natureza bastante conhecido dos antigos, e constituem uma das maiores perplexidades de Darwin. Mas a existência do hermafroditismo na evolução das primeiras Raças, certamente que não é uma impossibilidade; antes, pelo contrário, uma grande probabilidade, pois que, em virtude dos princípios da analogia, e de uma lei universal que rege a evolução e exerce indiferentemente sua ação sobre a planta como sobre o animal e o homem, assim deve ser. As teorias errôneas da Monogênese e as que fazem o homem descender dos mamíferos, em vez de os mamíferos descenderem do homem, são fatais para a perfeição da doutrina da evolução, tal como ensinada nas escolas modernas segundo os conceitos darwinistas, e terão que ser abandonadas ante as dificuldades insuperáveis que deparam. A tradição oculta - se os termos Ciência e Saber forem, neste particular, negados à Antiguidade - pode, só ela, conciliar as incompatibilidades e preencher a lacuna”.

     Ela fala da dificuldade que o homem atual tem de compreender o ser andrógino e como esta dificuldade é ainda maior para o ocidental materialista.

     “Será objeto da maior contestação, por parte das autoridades científica, a existência dessa Raça Assexual, a Segunda, constituída pelos Pais dos Chamados ‘Nascidos do Suor’, e mais ainda, talvez, a Terceira Raça, a dos Andróginos, ‘Nascidos do Ovo’. Estes dois modos de procriação são os mais difíceis de compreender, especialmente para a mentalidade ocidental. É evidente que não se pode intentar nenhuma explicação para quem não seja estudante de Metafísica oculta. As línguas européias não dispõem de palavras para exprimir coisas que a Natureza já não reproduz na fase atual de evolução, coisas que, por conseguinte, carecem inteiramente de sentido para o materialista. Há, porém, analogias. Não se nega que, nos começos da evolução física, devessem existir processos da natureza, como a geração espontânea por exemplo, que hoje desapareceram, repetindo-se sob outras formas”.

     Blavatsky lembra ainda o axioma talmúdico que diz: “se queres conhecer o invisível, abre os olhos ao visível” e mostra, na seguinte passagem de The Descent of Man, de Darwin, como este esteve próximo de aceitar tal ensinamento.

     “Sabe-se desde há muito tempo que, entre os vertebrados, cada sexo possui os rudimentos de diversas partes acessórias do sistema reprodutivo próprio do sexo oposto... Parece que algum remoto progenitor de toda a classe dos vertebrados foi hermafrodita ou andrógino; mas aqui nos defrontamos com uma singular dificuldade. Entre os mamíferos, os machos são dotados de rudimentos de um útero com passagens adjacentes nas vesículas prostáticas; possuem também rudimentos de mamas, e entre os marsupiais alguns machos conservam vestígios de um saco marsupial. Outros fatos análogos poderiam ser mencionados. Devemos então supor que alguns mamíferos antiquíssimos permaneceram andróginos, depois de haverem adquirido as características principais de sua classe e, por conseguinte, depois de se terem afastado das classes inferiores dos vertebrados? Afigura-se bem improvável, pois temos que nos reportar aos peixes, a mais inferior de todas as classes, para encontrar algumas formas andróginas ainda existentes”.

     No restante do discurso, Darwin mostra claramente sua repugnância em aceitar a hipótese da existência de um tronco primitivo andrógino do qual provieram os mamíferos.  (continua...)



Escrito por Flor do Asfalto às 10h24 AM
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Solve e Coagula

Onde também encontra-se o ideal do Andrógino Divino, não para aqueles que a estudam superficialmente, mas para os que procuram o que há de mais profundo nas ciências ocultas, é na Alquimia. Ao empreender a Grande Obra, o alquimista não intenta apenas conseguir a transmutação de metais comuns em ouro o elixir da longa vida, o segredo da juventude eterna.

     Cada estágio do processo alquímico, físico, tem uma contrapartida de natureza espiritual. O aforisma solve et coagula (dissolva e combine) contém o segredo da alquimia. A cada passo do processo substâncias são removidas e outra, mais nobre, aparece. A contrapartida espiritual é evidente. É a “morte e renascimento” tão familiar a muitas religiões.

     No estágio final da Grande Obra, “O rei é reunido, no Fogo do Amor, a sua abençoada Rainha”. O alquimista torna-se, então, o Ser Perfeito, o Andrógino Divino.

     Um dos grandes mistérios do nosso século, a identidade do iniciado conhecido por Fulcanelli (uma aproximação fonética de Vulcano, o deus ferreiro da mitologia romana, e Helios, o divino condutor do carro do Sol entre os antigos gregos), autor de O mistério das catedrais e As mansões filosofais, nos traz relatos, supostamente verídicos, de que tal objetivo alquímico é possível.

     Eugène Canseliet, último discípulo de Fulcaneli, sempre preservou a identidade de seu mestre e é a partir de seus relatos que se sabe alguma coisa desse misterioso alquimista.

     Em uma carta enviada a Walter Lang, autor da introdução da edição inglesa de O mistério das catedrais, Canseliet diz que, quando de sua colaboração com Fulcanelli, este “já era um homem bastante idoso, embora não se deixasse tolher por seus oitenta anos. Trinta anos depois, eu o encontrei novamente... e Fulcanelli não parecia ser mais velho do que eu”.

     Ele estaria com mais de cem anos e, segundo os relatos de Canseliet, parecia um jovem andrógino.

     Esse tipo surpreendente de transformação é facilmente encontrado em textos clássicos de literatura relacionados à alquimia. Seria um dos meios de atuação do elixir da vida. A pessoa perderia todos os pelos, os dentes e as unhas. Quando tornassem a crescer, o indivíduo assumiria feições mais jovens e macias, como a de um hermafrodita.

     Teria o misterioso Fulcanelli completado a grande obra? Em seu livro As moradas filosofais ele chama a atenção para uma das quatro estátuas no túmulo de Francisco II, na Catedral de Nantes, e chama a escultura de Prudência.

     De frente, a estátua mostra uma linda jovem vestindo uma longa túnica e manto com capuz e parece fascinada com seu próprio reflexo em um espelho convexo que segura em sua mão esquerda. Na direita, há um conjunto de compassos - que dispensa maiores comentários. Atrás da cabeça da jovem existe o rosto de um velho sábio que parece absorto em meditação.

     A figura é comparada por Fulcanelli ao deus Janus, de duas faces, filho de Apolo e Creusa. Segundo ele, a escultura representa a natureza em todos os seus aspectos, interiores ou exteriores. Porém, sob seu véu exterior, surge a imagem alquímica e, então, “somos, por meio dos atributos” (por meio da natureza), “iniciados nos segredos da segunda” (a alquimia).

     Segundo as conclusões de Kenneth Johnson, em seus estudos sobre alquimia e, baseado no pensamento Jungiano, “o simbolismo do Andrógino Divino não é apenas físico ou sexual. Seu maior e mais profundo significado parece evocar estabilidade, harmonia, equilíbrio perfeito, em todos os momentos possíveis”, e completa, “no sistema da Cabala - síntese de séculos de misticismo judaico - esse aspecto de harmonia é expresso em várias passagens da Assembléia Sacra Menor: ‘Quando a Noite está unida ao Rei na excelência do Sabá, todas as coisas se fazem então um único corpo (...) e a beleza do feminino é completada pela beleza do masculino (...) Quando a Mãe une-se ao Rei, os mundos recebem uma benção e se acham na alegria do universo’”.

 

As várias faces

     Para Escoto Erígena, teólogo do século IX, a explicação para o mito está no fato de que na unidade reside a perfeição; na divisão, a decadência, e que a salvação está no retorno à unidade de origem.

     Já Ariosto, no século XVI, em Orlando Furioso, dessacraliza o mito e serve-se dele como um trunfo grosseiro na história dos casal de gêmeos Bradamante e Ricardeto. Muito diferente é a postura de Balzac em Séraphîta (1853). O autor faz longas elaborações em torno das teorias teosóficas de Swendenborg (1688-1772) e deixa claro que, para ele, o andrógino é o ser fantástico que faz a ligação entre o céu e a terra, entre o divino e o mundano, um ser que reúne em si todas as qualidades humanas, um ser que unifica.

     Séraphîta é como um homem perfeito, uma criatura de extrema beleza e erudição que reúne em seu espírito - e também em seu corpo - as virtudes de ambos os sexos. Ora chamado de Séraphîta, ora de Séraphîtus, é amado por Wilfrid - aos olhos de quem passa por uma mulher - e por Minna - aos olhos de quem passa por homem, permanecendo ao mesmo tempo próximo e afastado dos dois. Ele/Ela tenta fazer com que os dois abandonem seus desejos terrenos e se elevem até ele. No fim da história, Séraphîta sobe ao céu e indica a Minna e Wilfrid o caminho a seguir. “De repente, ele se ergueu para morrer (,,,) Seus últimos cantos não foram expressos nem pela palavra, nem pelo olhar, nem pelo gesto nem por nenhum dos sinais que servem aos homens para comunicarem seus pensamentos, mas como a alma se fala a si mesma; pois, no instante em que Séraphîta se revelava na sua verdadeira natureza, suas idéias já não eram escravas das palavras humanas”.

     Mademoiselle de Maupin (1835/36), de Théophille Gautier leva o mito do andrógino a um nível mais realista e profano, fazendo com que a jovem Madeleine faz-se passar por homem procurando entender melhor a natureza masculina, mas seus planos não correm como planejado e ela acaba por se apaixonar por D’Albert e Rosette.

     Em Chants de Maldoror (1868), de Lautréamont, Hermafrodito é descrito como dono de “traços que exprimem a energia mais viril, ao mesmo tempo que a graça de uma virgem celeste. Nada parece natural nele, nem sequer os músculos de seu corpo, que abrem uma passagem através dos contornos harmoniosos das formas femininas”. Em determinado instante, “quando vê um homem e uma mulher que passeiam por uma alameda de plátanos, sente seu corpo fender-se de alto a baixo, e cada parte nova ir abraçar um dos passantes; mas é só uma alucinação, e razão não tarda a retomar seu império”.

     A fusão é sempre buscada consciente ou inconscientemente em qualquer leitura do mito. Robert Musil, em O homem sem qualidades, mostra o reencontro de um casal de gêmeos após muito tempo de separação. Ela acabara de deixar o marido; ele, um errante. O encontro, mais uma vez, mostra o retorno à unidade original na qual se encontra a felicidade do ser humano.

     “Nunca houve criatura. Nunca houve mais que o casal”, diz Jean Giradoux, em Sodome et Gomorrhe (1943), “Deus não criou o homem e a mulher um depois do outro, nem um do outro. Criou dois corpos gêmeos unidos por tiras de carne que depois ele cortou, num acesso de confiança, no dia em que criou a ternura. E, no dia em que criou a harmonia, fez de cada um desses corpos idênticos a dessemelhança e o próprio encaixe. E, enfim, no dia em que Deus teve seu único acesso de alegria, quis dar a si mesmo um louvor, criou a liberdade e delegou ao casal humano o poder de fundar neste baixo mundo as duas recompensas, os dois prêmios de Deus: a constância e a intimidade humana”.

     Mais conhecido para o leitor brasileiro é o romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, onde se expressa, de maneira erótica, as dificuldades da busca do casal de origem e a facilidade de procura daquele que se realiza efetivamente. Mas o arquétipo andrógino está exposto de maneira rica e modificada se comparada às outras obras aqui citadas, em Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa.

     Há de se concluir que o indivíduo só se realiza verdadeiramente no casal que é sua origem e onde está sua verdadeira essência. É responsabilidade de cada um cumprir essa união através deste templo que nos foi concedido, juntá-lo a outro e erigir um maior e verdadeiramente divino.

   O ideal do Andrógino Divino não é para ficar no mito, nas discussões estéreis ou no imaginário. Ele deve ser realizado.

Por Sandro Fortunato - Revista ISIS



Escrito por Flor do Asfalto às 10h11 AM
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Algumas Histórias Sobre Hermafroditas

Escultura Grega - Hermafrodita Adormecido - Museo do Louvre - Paris

Os hermafroditas sempre existiram, apesar de durante séculos a medicina negar isso. Há uma grande variedade de pinturas e estátuas gregas sobre o tema. Os gregos pareciam ser fascinados pelo tema e explicavam o fenômeno através da união do filho de Hermes com a Afodite, que teria dado origem a um ser metade homem, metade mulher (ilustrando este texto, coloquei duas estátuas gregas sobre o tema). Mas os primeiros relatos históricos ocorrem a partir da Idade Média.


Em uma delas o abade do mosteiro de Santa Genoveva descobriu que faltava dinheiro no tesouro do mosteiro e as suspeitas recaíram sobre um jovem que morava lá desde os 12 anos. O abade ordenou que fosse desnudado e açoitado. O rapaz se desesperou com a pena e pediu misericórdia. Disse que tinha nascido homem, mas que com o tempo percebera que era mulher. Nisso o verdadeiro ladrão foi pego. O abade pediu o exame de médicos, que chegaram à conclusão de que se tratava, de fato, de uma mulher. Ela passou a se vestir de mulher, casou-se e teve dois filhos.
Casos como esse, como final feliz, são a excessão quando se trata de hermafroditas.


Um caso que escandalizou a França no século XVII foi o de Marie le Marcis.
Ela nascera mulher, de uma família pobre, que a colocou para trabalhar como camareira. Em das casas em que trabalhou, teve que dividir a cama com uma enfermeira viúva, Jeanne Lefébure. Na intimidade da noite, revelou a ela a curiosidade de sua sexualidade e as duas começaram a se relacionar.
O amor foi crescendo e as duas decidiram se casar. Elas foram falar com Guillaume, pai de Marie, mas ela tentou convencê-las a mudar de opinião. Elas foram então procurar os parentes de Jeanne, que as aconselharam a consultar a penitenciária de Rouen. Para viajar, Marie se vestiu de homem e passou a se chamar Marin.
As duas foram presas assim que se descobriu o caso e levadas a um tribunal. O juiz se viu sem saber o que fazer já que, apesar dos sinais aparentes de feminilidade, as duas declaravam que Marie era na verdade um homem. A viúva chegou a declarar inclusive que o seu sexo era perfeitamente capaz de realizar os atos maritais e que Marie, inclusive a satisfazia mais do que seu antigo marido.
Uma junta de especialistas foi chamada e conclui que Maria não tinha nenhum sinal de virilidade.
No julgamento, Marie reclamou que os supostos especialistas não haviam examinado seu sexo. Mas o processo estava encerrado e as duas foram entregues à Câmara do Conselho.
O procurador do rei pediu ambas fossem condenadas, declarando-se culpadas com a cabeça e os pés descobertos, diante de uma igreja. Depois Marie seria queimada viva e seus bens confiscados. Jeanne assistiria à execução de sua cúmplice e depois seria açoitada e expulsa da região.
Entretanto, antes que as penas fossem aplicadas, elas foram levadas ao Parlamento de Rouen, que pediu um novo exame de uma equipe de especialistas composta por 10 doutores em medicina, dois praticantes e duas parteiras.
Marie foi examinada e a equipe declarou que não encontrou nela qualquer traço feminino, mas um dos médicos se revoltou com o exame superficial, já que a comissão havia se contentado com exames externos alegando que seria indecente apalpar o sexo da acusada. Mesmo diante da hojeriza dos colegas, ele examinou Marie e percebeu que ela era viril. Foi a salvação das duas, que foram inocentadas. Marie foi orientada a continuar se vestindo de mulher até os 25 anos e foi proibida de manter relações sexuais com qualquer pessoa, sob pena de morte.


Pouco tempo depois, uma disputa por poder revelou outro famoso famoso caso de hermafroditismo na França.
Nessa época a abadessa do Convento das Filhas de Deus cedeu seus benefícios eclesiásticos à sobrinha, senhorita d´Appremont. Mas havia uma outra pretendente ao cargo, irmã Damilly, que, em sua ofensiva, acusou d´Apremont de ser hermafrodita.
O advogado de defesa alegou a lei de Longi tempori preascriptione, segundo a qual não se deve perturbar aqueles que estão de boa fé, na posse de algo por mais de 20 anos. A freira possuía sua feminilidade há mais de 50 anos e, portanto, seu sexo não poderia ser questionado. Além disso, a religiosa se opunha a qualquer exame: Não há nada de mais vergonhoso que este exame para o qual nem a noite tem suficiente escuridão, nem a natureza suficientes véus".
O caso foi levado à corte eclesiástica de Chartres e se recorreu apenas a testemunhos de pessoas que diziam ter feito sexo com a religiosa. Como consequência, d´Appremont foi considerada culpada de abusar dos dois sexos e condenada a ser enforcada e depois queimada.
O advogado da condenada apelou e conseguiu que a freira fosse examinada por especialistas, que concluiram que d´Appremont tinha os dois sexos. Ela foi, então, condenada a ser presa e açoitada e todos os seus bens foram confiscados.


Outtro caso que angariou atenções na França e serviu de exemplo por parte dos iluministas, de que era necessária uma era de razão foi o Jean-Baptiste Grandjean. Ele nasceu mulher, com o nome de Claudine, mas aos 14 anos começou a perceber alterações não só físicas, mas também emocionais. Ela só se interessava por moças. A pedido do pai, foi se confessar com um padre, que disse que ela deveria se vestir de homem, pois continuar se vestindo de mulher seria cometer pecado contra a religião.
Assim Claudine virou Jean-Baptiste e chamou a atenção de todas as moças da região. A primeira a manter relações com ele foi uma tal de Legrand, que seria fatal para o hermafrodita.
Algum tempo depois ele conheceu Françoise Lambert e se casou com ela. Quis um destino que um dia a esposa se encontrasse com a antiga amante do marido, que a alertou para o fato de que seu esposo era um hermafrodita.
A mulher consultou um confessor, que a aconselhou a não ter mais intimidades com o marido até que o caso fosse esclarecido. O casal ficou de visitar o Vigário, mas antes que isso ocorresse, Legrand já havia espalhado para todos o caso.
A história chegou ao ouvido do Procurador, que ordenou a prisão de Jean-Bapitiste e posterior exame.
Uma comissão designada concluiu que, embora tivesse traços de virilidade, a pessoa em questão era uma mulher.
Grandjena foi condenado por profanar o sagrado sacramento do casamento. Seri exposto em praça pública por três dias, açoitado e ficaria em prisão perpétua.
O rapaz apelou ao parlamento e passou a ser defendido pelo famoso advogado Verneil. Este analisou melhor o relatório dos especialistas e concluiu que seu cliente tinha sexualidade indefinida. Ele alegou que seu cliente tinha presunção de boa-fé, o que atenuava o delito.
O parlamento admitiu a argumentação e absorveu o réu, mas também anulou seu casamento e impediu-o de casar novamente. Foi o último caso de hermafrodita levado aos tribunais

Nos dias de hoje nós hermafroditas, intersexos, travestis e transexuais não somos mais condenados a morte física, hoje nos condenam à morte social, à invisibilidade e à patologia.

Beijos a tod@s!

Claudia Wonder

dados: ivancarlo.blogspot.com



Escrito por Flor do Asfalto às 01h00 PM
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EUA: Transexual masculino, no quinto mês de gravidez enfrenta problemas com preconceito, mas está feliz!

 

Thomas Beatie, um transexual masculino casado, dará à luz uma menina no próximo inverno. Depois de várias tentativas para engravidar e após ter sido rejeitado pela sociedade e a sua família, agora enfrenta o preconceito dos médicos, informou a revista The Advocate.

Beatie submeteu-se a uma cirurgia para retirar os seios e a um tratamento de testosterona para adquirir o aspecto masculino, mas conservou os seus órgãos reprodutores femininos.

Casado há mais de dez anos sempre quis ter um bebé mas a mulher de Beatie, Nancy, sofreu uma endometriosis há 20 anos e por culpa dessa doença foi sujeita a uma histerectomia que a impede de ter filhos.

Logo que conseguiram ter uma situação económica confortável, o casal tomou a decisão de Beatie assumir a gestação do bebé.

"Tinham passado oito anos desde a minha última menstruação mas o meu corpo já se regulava por si mesmo e não tinha que tomar estrógenos nem progesterona, nem sequer medicamentos para favorecer a fertilidade com o fim de ajudar-me na gravidez", assegurou Beatie.

O plano deste casal deparou-se então com a oposição da comunidade médica, vizinhos e familiares.

"Os médicos nos discriminavam pelas suas crenças religiosas, alguns se negavam a chamar-me pelo nome masculino e a reconhecer Nancy como minhas mulher. Os recepcionistas riam de nós e os amigos nos negaram apoio. Grande parte da família de Nancy não sabia que eu era transsexual", explicou Beatie.

O primeiro médico endocrinologista que os atendeu rejeitou o caso porque a sua equipe se sentia incomodada em tratar "alguém como ele".

Depois de um ano em que correram nove médicos e gastaram milhares de dólares, Thomas e Nancy conseguiram aceder a um banco de esperma para fazer o seu bebé.

Todavia, a primeira tentativa não teve êxito e o óvulo fecundado instalou-se fora do útero, levando Beatie à sala de operações onde lhe retiraram uma das suas trompas de falópio.

«Quando o meu irmão soube da perda do feto disse: "Foi bom que acontecesse. Quem sabe que tipo de monstro teria sido?".

A segunda tentativa teve mais êxito e Beatie está agora grávido e espera dar à luz uma menina por volta de 3 de Julho deste ano.

"Como se sente um homem grávido? Incrível. Estou estável e seguro de mim mesmo como homem que sou. Me vejo como sucedâneo de mim mesmo. Eu serei o pai, Nancy a mãe e seremos uma família!", confessou Beatie, questionando o que é ser "normal" para a sociedade.

Pedro Costa
 



Escrito por Flor do Asfalto às 09h53 AM
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A teoria queer e os intersex: experiências invisíveis de corpos des-feitos

 

A teoria queer emergiu como uma corrente teórica que colocou em xeque as formas correntes de compreensão das identidades sociais no mesmo período em que a problemática dos intersex se tornou socialmente visível. Apesar disso, a reflexão queer sobre os intersex é muito recente. Os intersex impõem reflexões sobre experiências invisíveis, paradoxos identitários e os limites do que compreendemos como humano. Neste artigo, exploro as diferentes definições sobre quem são os intersex, como a teoria queer lida com eles e, concluo com uma reflexão sobre a experiência corporal dos sujeitos marcados como intersex.

Nádia Perez Pino

 

Experiências invisíveis

Tornar visível a experiência de alguém invisibilizado socialmente, ou melhor, de uma identidade marcada como abjeta e/ou estigmatizada, seria suficiente para escrever sua história? Segundo a historiadora e teórica feminista Joan W. Scott (1998), o caminho que parte da identidade como auto-evidente e busca retraçar sua história constitui um procedimento teórico equivocado. Embora tenha sido considerado durante muito tempo um procedimento exitoso para aqueles empenhados em escrever as histórias das diferenças socialmente construídas, essa estratégia como "porto seguro" das explicações pode resvalar para o oposto: de uma tentativa construcionista pode recair no essencialismo que toma como dadas identidades sociais, o que terminaria por invisibilizar os processos que constituíram esses sujeitos.

Os estudos que partem das identidades e voltam-se para a reconstituição de suas histórias as encaram como fixas e, portanto, tomam como ponto de partida da investigação o que deveria ser o de chegada. Para Scott, a experiência não deve ser o ponto de partida da explicação, antes o que devemos explicar, isso porque são as experiências que constituem os sujeitos e não os sujeitos que têm experiências. Um novo procedimento teórico- metodológico que problematize as identidades por meio de uma reconstituição e análise das experiências dos sujeitos em questão permite problematizar não as identidades, mas os processos sociais envolvidos em sua construção.1

Os intersex constituem mais uma daquelas identidades que associamos à invisibilidade, pois sobre eles pouco se sabe e pouco se fala. A maior prova do desconhecimento, do silêncio ou, nas palavras de Mariza Corrêa (2004), "do segredo" em torno da condição intersex, é que apenas recentemente o assunto deixou de ser restrito aos saberes médicos e biológicos sendo progressivamente incorporado pelas discussões sociológicas, antropológicas, pela crítica feminista e pelos estudos queer. A intersexualidade suscita importantes reflexões sobre os paradoxos identitários quase invisíveis, propiciando análises sobre a construção do corpo sexuado, seus significados sociais e políticos, assim como sobre o processo de normalização e controle social não apenas dos intersex, mas também de todos os corpos.

Quem são os intersex? Ao buscar a resposta, o que se encontra é um emaranhado de definições vindas de diferentes sujeitos e de diferentes discursos, como os ativismos intersex e a perspectiva da medicina. Tentar resolver os impasses acerca da definição mais correta talvez não seja o melhor caminho, justamente porque é na indefinição do termo que podemos analisar os muitos significados atribuídos aos intersex.

Intersex é um termo de origem médica que foi incorporado pelos ativismos para designar as pessoas que nascem com corpos que não se encaixam naquilo que entendemos por corpos masculinos ou femininos. Segundo a ISNA2, intersex é uma definição geral usada para explicar a variedade de condições nas quais as pessoas nascem com órgãos reprodutivos e anatomias sexuais que não se encaixam na típica definição de masculino ou feminino.3 São corpos que destoam de nossos parâmetros culturais binários, que embaralham e causam estranheza para aqueles que os vê ou que não se enquadram no que Susan Bordo chama de representações de corpos inteligíveis que "abrange nossas representações científicas, filosóficas e estéticas sobre o corpo – nossa concepção cultural de corpo, que inclui normas de beleza, modelos de saúde e assim por diante" (Bordo, 1997:33). São corpos que deslizam nas representações do que se considera como verdadeiramente humano, situando-se nos interstícios entre o que é normal e o que é patológico. Esta "não-humanidade" ou "anormalidade" justificará as intervenções médicas com o intuito de adequá-lo ao ideal do dimorfismo sexual.

É muito comum à associação do intersex com o hermafrodita, pessoa que possui os dois sexos. Segundo Mauro Cabral, ativista intersex e pesquisador da temática, essa associação presente em nosso imaginário cultural é oriunda das artes e da mitologia, mas não condiz com a realidade do corpo intersex, sendo que o conceito chave para entender a intersexualidade é a variedade, já que o corpo intersex não encerra um corpo único, mas um conjunto amplo de corporalidades possíveis (Cabral & Benzur, 2005:284) Continua...

A teoria queer e os intersex

Os estudos queer emergem na década de 1980 como uma corrente teórica que colocou em xeque as formas correntes de compreender as identidades sociais. Descendendo teoricamente dos estudos gays e lésbicos, da teoria feminista, da sociologia do desvio norte-americana e dos pós-estruturalismo francês, a teoria queer surge em um momento de reavaliação crítica da política de identidades.6 Assim, busca evidenciar como conhecimentos e práticas sexualizam corpos, desejos, identidades e instituições sociais numa organização fundada na heterossexualidade compulsória (obrigação social de se relacionar amorosa e sexualmente com pessoas do sexo oposto) e na heteronormatividade (enquadramento de todas as relações – mesmo as supostamente inaceitáveis entre pessoas do mesmo sexo – em um binarismo de gênero que organiza suas práticas, atos e desejos a partir do modelo do casal heterossexual reprodutivo).

Embora não possa ser definida como um todo único, já que em seu interior há divergências e diferenças, e querer unificá-las contraria seus objetivos políticos (Pereira, 2006), a teoria queer pode ser compreendida a partir das questões que a originaram e as que, atualmente, se tornaram seu foco. O termo queer pode ser traduzido como esquisito, anormal, excêntrico e também é utilizado em tons depreciativos e homofóbicos para designar gays e lésbicas. Segundo Annemarie Jagose (1996), o termo faz parte do vocabulário semântico para entender a homossexualidade desde o século XIX e, recentemente, ganhou significado político pela incorporação teórica e adoção pelos movimentos sociais. Atualmente, é usado como um conceito guarda-chuva que abrange a coalizão da cultura sexual marginalizada, que se auto-identifica como queer, outras vezes para descrever a nascente teoria que tem se desenvolvido distante dos estudos mais tradicionais sobre gays e lésbicas. No entanto, o termo se caracteriza pela indefinição, elasticidade e abrangência, o que, para Guacira Lopes Louro (2001:546), representa "claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada, e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora".

A teoria queer pensa os sujeitos e as práticas sexuais que ultrapassam a oposição homossexual/heterossexual, mulher/ homem, apontando para a variedade e diversidade das subjetivações e das práticas que não se enquadram no que Judith Butler (2003:48) chama de gêneros inteligíveis, "aqueles que mantêm e instituem relações de coerência e continuidade entre o sexo, gênero, desejo e prática sexual". O queer descreve os gestos ou modelos analíticos que mostram as incoerências da suposta relação estável, revelando que a heterossexualidade não é natural, antes efeito do poder, do controle e da regulação social.

Assim, a teoria queer tem por objeto os sujeitos que não se enquadram nas matrizes de inteligibilidade de gênero. No entanto, as identidades sexuais "transgressoras" não são seu único foco, pois ela interroga os processos sociais que produzem, reconhecem, naturalizam e sustentam as identidades. Sua promessa política reside na crítica aos múltiplos binarismos e aparentes antagonismos sociais expressos em categorias que incluem raça, gênero, classe, nacionalidade e religião, todas não apenas somadas, mas necessariamente relacionadas com a sexualidade (Eng et alii, 2005). Dispensa atenção aos indivíduos que não se conformam às regras e, portanto, vivem nas zonas de abjeção, lugares nos quais sua própria humanidade é contestada, exatamente por não corresponder aos ideais normativos do humano. A estratégia do queer é politizar a abjeção, impulsionar sua resignificação com a finalidade de criar estratégias de sobrevivência para que as vidas queer sejam legíveis, valorizadas, merecedoras de apoio e de reconhecimento (Butler, 2002:47).

Muitas vezes, a teoria queer é interpretada como aquela que subverte, questiona, des-constrói, pluraliza as identidades. Embora esses termos pertençam ao vocabulário comumente usado para definir suas características, isso não significa desconsiderar as identidades ou muito menos afirmar que é possível viver sem elas. O chamado para a "desconstrução" é um procedimento teórico e metodológico que tem por finalidade pensar os processos sociais e históricos que criam e naturalizam as identidades e as relações de poder que as constituem. Dessa maneira, como aponta Jagose, o termo mais adequado para o procedimento teórico queer não é desconstrução, antes "desnaturalização" das identidades. Continua...

Leia o dossiê completo em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332007000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Leia também; Teoria Queer: Uma política pós-identitária para a educação em: http://www.antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=1031



Escrito por Flor do Asfalto às 07h24 PM
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