
A matéria abaixo foi publicada na seção Wonderground, do site Gonline: www.gonline.com.br. Essa seção é editada pela jornalista Cláudia Wonder (foto acima) presidenta da Associação Flor do Asfalto.
Disforia de Gênero (GID) por Dra. Martha Freitas
Hoje em dia, no mundo científico, uma série de fenômenos é conhecida como disforias de gênero. Um outro nome muito usado é GID - Gender Identity Disorders ou Transtornos de Identidade de Gênero.
No CID-10 (Código Internacional de Doenças) da Organização Mundial de Saúde, esses transtornos estão classificados sob a rubrica F64. Incluem-se entre essas disforias de gênero (disforia quer dizer sentir uma indisposição, um mal estar, uma inadequação com sua situação de gênero, independentemente se essa inadequação se dá com o corpo todo, com partes dele, ou apenas com o papel social), o transexualismo, classificado como F64.0... o crossdressing, classificado como F64.1, o travestismo (ou hoje em dia conhecido também como transgenderismo ainda não bem classificado no CID (hoje em dia está classificado como GIDNOS - Transtorno de identidade de gênero não muito bem especificado, com o que nós não concordamos), e situações de hermafroditismo e de intersexo, quando a designação sexual cirúrgica precoce se mostra inadequada (um grande número de casos, mais de 25% de todos os casos de designação cirúrgica de bebês intersexuais e hermafroditas geram uma GID do tipo transexual).
Quando falamos de transexuais, travestis e crossdressers, sempre se vulgariza a conversa, e se confunde atos da vontade com gostos pessoais... gostos pessoais com tendências devido a traumas precoces... tendências devido a traumas com fatores genéticos e neurobiológicos. Vamos procurar mudar o nível da conversa, elevando-a para o científico, neurobiológico e psicoterapêutico.
Continua...
Escrito por Flor do Asfalto às 03h30 PM
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Continuação
Transexualismo é a radical inadequação existencial entre características genitais e cerebrais. Não é um problema psicológico, e muito menos moral. Não é opção pessoal. É desarmonia somática, congênita, por uma discordância estrutural entre o sexo genital e o sexo do cérebro. Essas pessoas têm o pleno direito a terem sua realidade harmonizada internamente, através de uma redesignação genital _já que a redesignação cerebral é impossível. Nestes casos, a cura da situação de disforia é o diagnóstico o mais precoce possível, a hormonioterapia idem, e a redesignação sexual também... com a conseqüente automática redesignação civil, e inclusão social irrestrita. Nos países onde esta forma de tratar da questão é seguida, como Holanda e Bélgica, a cura é total, em crianças de 16 anos plenamente redesignadas e reintegradas socialmente.
Países subdesenvolvidos como o Brasil, nem permitem o estudo de crianças... as autoridades tentam impedir inclusive o estudo... meios de comunicação mais populares tentam impedir que se divulgue a possibilidade da cura e do estudo... universidades tentam impedir que se divulgue a possibilidade de cura e estudo... o que faz com que muitos se tratem no exterior, quando podem, os poucos que podem. No Brasil, a avaliação começa, se começar, aos 18 anos... estamos na idade da pedra... e geralmente, nos meios acadêmicos e oficiais, é da pior qualidade...
Travestismo, ou transgenderismo, é uma inadequação parcial com sua situação de gênero. Existe a disforia com o corpo, mas não com os genitais. Nossa experiência indica que o cérebro neste caso não está em desarmonia com os genitais, mas um trauma na primeira infância, muito forte, geralmente uma rejeição materna na primeira infância, termina por gerar essa disforia bastante, mas não totalmente, radical. Tratamento psicoterápico se mostra ineficiente, e esses casos dificilmente regridem. O melhor é apoiar a vítima em sua situação de disforia, acolhendo-a socialmente como ela é, e existencialmente como ela se tornou, como fizeram com que ela se tornasse. O melhor é encarar esses casos como uma situação de diversidade, gerada por um trauma é verdade, mas em si irreversível. Precisam de cuidados médicos e terapêuticos especiais, infelizmente ainda tão negligenciados por nossa sociedade. Geralmente, marginalizados, terminam se prostituindo como forma de sobrevivência, e como reação social ao estado de maus tratos.
O Crossdressing é uma sensação de disforia com o papel social. Apresenta uma enorme diversidade de causas e conseqüências, mas geralmente está associado a traumas não tão precoces nem tão profundos... abusos sexuais... inaceitação da figura paterna... identificação excessiva com a mãe...
Pode ser reversível, em princípio, mas, infelizmente, muitas vezes, vem associado a psicopatias como uma OCD - um transtorno obsessivo e compulsivo, que se não tratado, tende a se agravar com o tempo.
Esclarecido quem são, vamos esclarecer quem não são:
Não são necessariamente homossexuais. Tanto transexuais, travestis e crossdressers podem ter sua orientação como heterossexuais, bissexuais ou homossexuais.
Não são necessariamente promíscuos... a sociedade, ignorante e irresponsável, muitas vezes os condenam a viver na miséria, no abandono, no desemprego e na marginalidade... o que pode acarretar como conseqüência a promiscuidade.
Não são bandidos... perto de alguns juízes, procuradores e outras autoridades, eles deveriam ser considerados santinhos.
Não são doentes mentais... não são inferiores a ninguém... apenas, em alguns casos, os traumas e os maus tratos geram depressões terríveis, os traumas podem gerar estados psicóticos como esquizofrenias, muitas vezes conseqüência e nem sempre causa destas GID e GIDNOS... muitas vezes apresentam uma OCD associada à disforia.
Não são decaídos morais... apenas são abandonados por falsas religiões, que ao invés de os acolher, os excluem, como fizeram antes com mulheres, índios, negros, homossexuais... e outras minorias excluídas da teologia particular e do moralismo do que só consegue enxergar defeitos no alheio.
O que se pode fazer por eles?
Antes de mais nada, respeitá-los, todos, pelo que são.
Em segundo lugar, respeitá-los sempre por não considerá-los nunca pelo que não são.
por Dra.Martha Freitas - Waléria Torres, M.S., Ph.D.
Dra.Martha Freitas é Diretora da Gendercare Gender Clinic (www.gendercare.com), clínica tetralíngue de gênero (inglês, português, francês e espanhol) que diagnostica, trata e acompanha casos de GID em mais de 120 países, pela internet, sendo também membro titular da Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association,Inc-HBIGDA, que estabelece internacionalmente os SOC, os Standards of Care, hoje em sua versão 6 de 2001, como protocolo de tratamento das GID's, conforme o CID-10. Na Biblioteca da Gendercare encontram-se os SOC6 comentados por Dra.Martha, e muitos outros originais e papers sobre esses assuntos, inclusive em português.
Escrito por Flor do Asfalto às 03h26 PM
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