TRANS-HOMENS


Hannah Gluckstein (1895-1978)


Por Mauro Cabral, Argentina
Tradução de Luiz Ramires (grupo CORSA, Brasil)


A noção de identidade de gênero trata, falando-se em termos gerais, do senso interior que um indivíduo tem do seu próprio sexo. Ela responde à pergunta: "Eu sou um homem ou uma mulher, ou algo inteiramente diferente?", e constitui o resultado da interação entre fatores tais como a predisposição genética, as estruturas fisiológicas e o processo de socialização. As identidades conhecidas como "transgêneros" são as que atribuímos às pessoas que expressam o gênero de maneiras distintas daquelas tradicionalmente associadas ao seu sexo anatômico -independente da presença de terapias de redesignação sexual, seja por meio cirúrgico ou hormonal. Abrangem, portanto, os e as transexuais, os e as transgêneros, os cross-dressers (pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto), travestis, drag queens e drag kings, etc.

A história fornece exemplos de pessoas consideradas femininas anatomicamente mas que viveram suas vidas como homens, em diversas culturas, tempos e lugares. Durante os últimos cinqüenta anos, esta experiência foi particularmente encarada como uma conseqüência de desdobramentos hormonais e cirúrgicos, embora a aceitação massiva da transgeneridade como uma opção identitária ainda pareça ser algo distante, e o acesso aos tratamentos transgenéricos ainda sejam regulados pelos conceitos de gênero postulados pela psiquiatria e pela medicina.

O transgenerismo de feminino a masculino abrange um espectro muito heterogêneo de identidades, baseadas em diversas práticas na construção do corpo, em orientações sexuais diversificadas (existem trans-homens que são heterossexuais, bissexuais, homossexuais, pansexuais, celibatários, etc.) e diferentes ideologias políticas.

Utilizando como ponto de referência o senso interior de gênero da pessoa, a transgeneridade de feminino para masculino inclui todas as pessoas que, a partir de uma posição (social e/ou pessoalmente) reconhecida como feminina, vivem sua identidade masculina independente de sua condição corporal; isto é, não é necessário ter sido operado ou estar sob tratamento hormonal para se reconhecer a si próprio como sendo, e exigir ser reconhecido como, um trans-homem. O pleno reconhecimento das identidades dos trans-homens não deve depender de cirurgias de redesignação de sexo obrigatórias.

A experiência contemporânea dos trans-homens deve ser considerada como sendo fortemente influenciada por variáveis geográficas, socioeconômicas, raciais, étnicas e religiosas, entre outras. No melhor dos casos, o Estado deve garantir o acesso a tratamentos cirúrgicos e hormonais (ou os mesmos deverão ser disponibilizados privadamente) e deve reconhecer juridicamente a nova identidade. Nos países do Terceiro Mundo (e no caso de muitos trans-homens que são negros, latinos ou pertencem a outras minorias do Primeiro Mundo), a transgeneridade é uma experiência que ainda é caracterizada pela invisibilidade, pela falta de informações, um mercado clandestino de cirurgias e hormônios e a dificuldade de se obter o reconhecimento jurídico. Não dispõem de serviços médicos que atendam às suas necessidades específicas (exames de sangue, programas para o HIV, exames ginecológicos, etc.). Tal como no caso de outras minorias de gênero, os trans-homens estão sujeitos a muitos exemplos de tratamentos psiquiátricos compulsórios, à discriminação e à violência familiar e social e seus direitos de genitores não são muitas vezes assegurados. A construção de grupos e redes de comunicação de trans-homens é um fenômeno contemporâneo que está mudando este quadro; o trabalho destes grupos e redes baseia-se no apoio mútuo pelos pares, a disponibilização de informações confiáveis e a articulação política com outras minorias.

Os documentos de identidade oficiais fornecem a personalidade civil. Em muitos países, a posse de uma carteira de identidade padrão, emitida pelo Estado, é um atributo prévio para se ter acesso a uma variedade de relações da sociedade civil oficial - para se tirar a carteira de motorista, para se adquirir acomodação provisória, para se conseguir benefícios essenciais tais como atendimento à saúde. No mundo atual, ter uma carteira de identidade, e tê-la corresponde à apresentação cotidiana de uma pessoa, é uma necessidade para se levar uma vida normal.

Entre os instrumentos através dos quais os Estados definem a personalidade civil, o gênero constitui uma categoria crucial e inevitável. Os Estados se arroga o poder de dizer quem é do sexo masculino e quem é do sexo feminino. Ter a definição do Estado do próprio gênero diferente do gênero aparente ou escolhido pode significar cair num limbo de invisibilidade indiferente ou de negligência malevolente. Os direitos de um indivíduo à moradia, à saúde, à liberdade de locomoção, poderão ser todos eles ameaçados. Tal ameaça é brutal, discriminatória, desumana e inaceitável.

Os Estados, portanto, têm obrigação de assegurar que a identidade de gênero não se torne um instrumento de negação do reconhecimento civil. E a identidade de gênero, além disso, não pode ser transformada simplesmente numa questão de certificação médica. O gênero não pode ser tratado exclusivamente como um fato biológico a ser modificado ou retificado apenas em função de determinadas técnicas jurídicas. O gênero é um fato social e um produto da interação do indivíduo com a cultura e não um mero dado físico ou biológico.

Que a noção de gênero tenha esta dimensão não biológica é algo que já foi articulado, entre outras coisas, pelo Comitê das Nações Unidas para os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que observa em seu Comentário Geral Nº 14 (que trata do direito à saúde) que "uma abordagem [no tocante à saúde] baseada no gênero reconhece que fatores biológicos e [tanto quanto] sócio-culturais" estão envolvidos. Também se reconheceu no Estatuto de Roma do Tribunal Criminal Internacional, que afirma no Artigo 7º, parágrafo 3, que gênero "refere-se aos dois sexos, masculino e feminino, dentro do contexto da sociedade" (grifo meu).

O gênero é um aspecto da auto-imagem de cada um, de sua personalidade vivida e de sua integração à sociedade. Os seres humanos devem ter o poder de expressar seu próprio gênero, em reconhecimento de sua autonomia interna, seu caráter insubstituível, e sua dignidade humana essencial. A afirmação desta autonomia, o respeito a esta dignidade, não podem depender de procedimentos médicos. Afirmar o contrário – que o reconhecimento da personalidade civil de alguém (e a possibilidade deste usufruir os direitos que daí advêm) está vinculado ao já ter-se submetido à cirurgia de redesignação sexual - seria, de fato, exigir este tratamento médico sem consentimento. Tal intervenção cirúrgica compulsória violaria o Artigo 7º da Convenção Internacional dos Direitos Civis e Políticos (CIDCP), a qual afirma que "Em particular, ninguém será submetido sem seu livre consentimento à experimentação médica ou científica". Obter pela força o consentimento para a cirurgia como o preço a pagar pelo reconhecimento civil, exigir uma intervenção médica para que se possam usufruir direitos, é zombar de todos estes princípios. Direitos não podem ser retidos a título de resgate para o bisturi.



Escrito por Flor do Asfalto às 07h34 PM
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EM BUSCA DE FORMAS MAIS HARMONIOSAS


© Imagem, Mark Arbeit

O preconceito contra os homens efeminados e as mulheres masculinas talvez seja um dos preconceitos mais antigos do mundo.

O pior é que devido á homofobia internalizada, esse preconceito vem mais da parte dos homossexuais do que dos heterossexuais.

Já senti o preconceito dos meus “iguais” na pele. Era efeminado e, por não ser aceito nem pelos héteros e nem pelos gays, me efeminei por completo e me tornei travesti. Nunca esqueço a frase que disse quando, aos 22 anos, tomei a decisão: “Vou virar travesti para ser amado”.

Comigo foi assim. Porém, a questão é: por que existem homens efeminados e mulheres masculinas?

Ser feminino ou ser masculina está ligado à identidade de gênero e isso muitas vezes não corresponde nem ao sexo biológico e nem à sexualidade da pessoa. O psicólogo Claudio Picazzio, autor de “Diferentes Desejos”, explica bem essa questão quando fala dos “quatro pilares da sexualidade”. Um exemplo simples que ilustra essa questão é que existem muitos travestis que gostam de mulher.

Como a sociedade denomina o gênero de uma pessoa a partir de seu sexo biológico, a discussão fica limitada nessa bipolarização de gêneros da qual a androginia não faz parte. Porém, a androginia sempre esteve presente na história da humanidade. Tanto que na Grécia, como na Roma antiga, os efeminados e as masculinas já se faziam presentes, como provam as estátuas de Koré, lindas ninfas com corpos musculosos de Adonis, e os famosos eunucos (um deles, segundo a História, teria sido casado com Nero).

Precisamos acabar com esse preconceito ridículo de que homem feminino e mulher masculina não são aceitáveis.

Há muito que venho lutando contra o “preconceito espelhado”, pois minha experiência de vida mostra que são raríssimos os gays que não “dão pinta”. Não estou falando da desmunhecação exacerbada dos personagens gays em programas humorísticos, cujo objetivo é o de satirizar. Falo de uma diferença natural que a maioria dos homossexuais têm, seja no falar, no andar e até no olhar, que os difere da maioria dos homens heterossexuais. E que em nome de uma identidade social “aceitável” eles tentam a todo preço disfarçar.

Há pouco tempo, na Arábia Saudita, um grupo de homossexuais foi condenado a chibatadas e meses de prisão por participarem de uma festa gay. Dois homossexuais do mesmo grupo tiveram suas penas multiplicadas por dez porque eram efeminados.

Ser efeminado, assim como ser masculino, é uma característica inerente à natureza da pessoa. Alguns conseguem camuflar, outros não. Prova maior é a dos dois gays árabes que mesmo na eminência de uma condenação tão cruel não tiveram como disfarçar, pois, se pudessem, com certeza o fariam.

Passei toda minha infância e adolescência com as pessoas tentando corrigir minha feminilidade. Muitas vezes eu tentei, mas não adiantou. Foi mais fácil virar “mulher”.

Acredito que lutar por uma cidadania plena começa em não se camuflar e aceitar a sua identidade. Temos de ser aceitos como somos, não como nossos opressores desejam nos moldar.

Tenho o maior respeito pelos ativistas gays, mas acredito que eles deveriam começar a pensar mais sobre isso, aliás, muitos ativistas pensam da mesma forma que a maioria e detestam efeminados. Conheço um célebre militante que se vangloria de ter conseguido, com muito esforço diante do espelho, uma atitude masculina.

Se quisermos mudar o mundo a nossa volta, temos primeiro que mudar o nosso próprio mundo interior, nos aceitando de verdade e por inteiro.

O professor Jean Wyllys estava certo ao afirmar, em entrevista para a G Magazine, que os travestis (leia-se também efeminados) estão na vanguarda da luta contra o preconceito, e que eles formam um escudo que protege os gays da hegemonia homofóbica. É assim: com a visibilidade das “transgressoras”, os gays mais parecidos com héteros se tornam mais “limpinhos”.

Jean provou saber das coisas, assim como o filósofo Richard Rorty, quando diz: “Não pergunte o que é ser masculino ou feminino, nem como podemos nos descrever enquanto homens ou mulheres. Pergunte como podemos buscar formas mais belas e harmônicas de vida”.

©Texto Claudia Wonder



Escrito por Flor do Asfalto às 09h46 PM
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DICA DE LEITURA



Evolução do Gênero e da Sexualidade

Joan Roughgarden – Stanford University

O livro de Roughgarden é o mais fidedigno e abrangente à disposição, preenchendo uma desesperadora lacuna para os leitores, tanto da comunidade científica, como de fora dela.
Nature


Roughgarden não está sugerindo uma revisão na teoria de seleção sexual de Darwin Ela está propondo sua total demolição, seguida de reconstrução a partir do alicerce.
Financial Times


Evolução do Gênero e da Sexualidade é um livro extraordinário que combina um ataque radical à concepção Darwiniana de seleção sexual com a narrativa pessoal a partir da perspectiva de uma mulher transexual.
American Scientist



Escrito por Flor do Asfalto às 09h22 PM
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BRENDA IS ALIVE




Casa de apoio mantém vivo o ideal de Brenda Lee

Tem conseguido minimizar o impacto social da aids no nosso meio não só com a recuperação nutricional dos pacientes, devido a alimentação adequada e a medicação na hora certa e específica, mas também com a reinserção de alguns pacientes na família (após o convívio deles com o paciente na Casa) e no mercado de trabalho, mostrando a possibilidade de convívio satisfatório com a infecção do vírus HIV e o abandono ou a redução/controle das atividades de risco, tanto para ele como para os outros. Muito ainda se tem por fazer, pois apesar dos avanços da medicina, no que se refere à medicação e a melhor aceitabilidade pela sociedade, o problema sócio-econômico ainda não está resolvido, apesar das medidas econômicas tomadas nesses últimos anos. Vale esclarecer que a recuperação dos pacientes está em torno de 100% quando de sua entrada na Instituição.

Embora há muitos anos várias instituições venham se dedicando a públicos como idosos e crianças carentes, a Casa de Apoio Brenda Lee conquistou respeito internacional por sua postura de dedicação a um grupo marcado por um triplo preconceito: a homossexualidade, a presença do vírus HIV e o travestismo, sempre associado a drogas, furtos e arruaças.

Graças ao empenho e à dedicação dos funcionários e, principalmente, dos voluntários que lá trabalham, a Casa de Apoio Brenda Lee - instituição de assistência aos portadores do HIV - continua sendo, cada vez mais, uma importante referência na reabilitação de portadores de HIV/Aids e funcionando a pleno vapor, nove anos depois do assassinato de sua fundadora. O trabalho solidário de Brenda Lee, que começou por acaso há mais de 20 anos, proporciona um abrigo, um lugar ou melhor, uma família, onde todos, sem preconceito, vivem, se cuidam, se tratam, alguns estudam, e se reintegram nesta sociedade tão dividida.

Conheça melhor esse trabalho acessando o site: Casa de Apoio Brenda Lee



Escrito por Flor do Asfalto às 01h02 PM
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INCLUSÃO SOCIAL



Empresa multinacional oferece almoço de fim de ano em restaurante de luxo para trans HIV+

Por Claudia Wonder


A distribuidora United Medical, que representa no Brasil o laboratório canadense Gilead, fabricante do remédio contra a aids Tenofovir, teve neste final de ano de 2006 uma atitude pioneira.

Com um gesto de altruísmo ofereceu ao Lar Somando Forças, que cuida de pessoas trans HIV+, um almoço na churrascaria El Tranvia no seleto bairro de Higienópolis, em São Paulo.


Leia mais sobre este importantíssimo evento clicando >>>aqui<<<



© matéria, G.Online



Escrito por Flor do Asfalto às 11h20 PM
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Editora Planta


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Editora Mandála


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Editora GLS


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Editora Cultrix


Maria Jacqueline Coelho Pinto e Maria Alves de Toledo Bruns
Editora Átomo & Alínea


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