Uma Visão do Travestismo na Cultura GLBT

Por Claudia Wonder

Existe uma cultura gay? O que poderíamos chamar de cultura GLBT? Essa foi a pergunta que me fiz quando sentei diante do computador para fazer esse texto. E eu acredito que posso responder que sim.

Quando comecei a conhecer o universo gay, o centro da cidade e mais precisamente a Praça da República - a maior referência como reduto de homossexuais da época -, eu fiz meus primeiros contatos com gays e travestis daquele tempo. Figuras como Lola, Micheli Miss Universo, Nana Voguel, Miss Biá e Dinamarca me ensinaram os primeiros passos da vida gay.

As boates gays ainda não existiam, havia apenas bares como o Barroquinho, na Galeria Metrópole.  E os ícones eram os travestis que se apresentavam nos teatros e nas boates héteros da boca do luxo.

Naquela época todos fazíamos parte de um só grupo, não havia diferença entre gay e travesti. As lésbicas, entretanto, se mantinham à parte, víamos muito pouco, quase não se mostravam.

Não é por menos que atualmente me cause espanto a segmentação entre a cena: hoje as travestis são marginalizados por muitos gays, mas naquele tempo elas eram os maiores ícones da comunidade. Rogéria, Valéria, Lorena e outras apareciam constantemente em capas de revistas e na televisão como atores transformistas. 

Silvio Santos, por exemplo realizava todos os anos, durante o carnaval,  um concurso que elegia o mais belo transformista, onde fazia questão de chamar pelo nome de homem causando assim espanto e risadas na platéia. Mas era o que tínhamos naquele momento e, creio, era muito melhor do que vemos na mídia hoje em dia. Porque éramos mostrados apenas como uma forma de arte e beleza. Aliás, os concursos de beleza como o Miss Brasil Gay sempre fizeram parte do nosso universo.  Toda bicha novinha que “caía no mundo” queria se vestir de mulher e participar do concurso. Era uma espécie de ritual de passagem.

Estou falando da minha geração, adolescentes dos anos 1970, época em que as boates
começaram a aparecer e se firmar em São Paulo, como a Nostro Mondo, a Medieval e o Val Improviso... Depois veio a Homo Sapiens e muitas outras. E os shows de travestis sempre fizeram parte da vida noturna gay. Em todas as boates havia shows e muitos eram grandiosos e dignos de um teatro da off broadway.

Um exemplo? Os Dzi Croquetes, espetáculo de contra cultura fez a cabeça dos brasileiros em meados dos anos setenta. Um show para teatro com atores dançarinos excelentes e com texto e coreografia apuradíssimos. Fazendo um tipo de humor diversificado que trazia a androginia como ponto de partida.


Escrito por Flor do Asfalto às 08h04 PM
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Continuação

Depois vieram As Gigolletes, também um show para teatro, só que desta vez trazia os travestis mais talentosos do eixo São Paulo - Rio de Janeiro. No mais tradicional estilo do teatro de revista e com muito humor e glamour, As Gigolletes lotaram o teatro durante um ano e ficou na história. Vieram outros como O Que é que a Boneca Tem, Boys Metes Boys e A Gaiola das Loucas

Foi também nessa época que gays e travestis começaram a sair do gueto e se manifestarem com roupas e atitudes próprias do universo gay junto ao público hétero, era época do Dancing and Days. Nas discotecas, os gays começavam a gozar de uma certa liberdade de expressão. Apenas na atitude, porque beijo de homem com homem, nem pensar: era colocado pra fora na hora. Mas podia se vestir de Mulher Maravilha o quanto quisesse.

Os anos 80 chegaram e com eles um pouco mais de liberdade. Era a virada política, a abertura e a contra cultura fazendo a diferença. Uma boate em especial marcou essa época de forma radical: o Madame Satã, em São Paulo.

Aquele
lugar foi a primeira casa noturna onde os gays puderam se beijar em meio os héteros sem serem molestados. Aliás, ali tudo era permitido e foi o estopim para que acontecesse a mudança de comportamento da sociedade a respeito da diversidade sexual. Foi a época das mudanças onde a mídia abriu espaço para que esse assunto fosse discutido. Mais uma vez o travestismo estava na vanguarda com Roberta Close e Thelma Lipp impressionando a todos com suas belezas e eu, Claudia Wonder, ocupando as páginas culturais dos jornais com críticas elogiosas sobre o show O Vômito do Mito. 

Vale a pena lembrar essas coisas porque até então, os jornais só produziam matérias com homossexuais quando estivessem envolvidos em algum crime.

A partir dos anos de 1980 as coisas começaram a mudar e, no final dessa década até meados da década seguinte, as drags queens reinaram absolutas em todos os tipos de mídia. 

Depois vieram o Festival de Cinema e Vídeo Mix Brasil, as Paradas do Orgulho, a revista G Magazine, e todas essas manifestações maravilhosas que temos para celebrar nossa cultura.

Nossa cultura é sim os bares e boates, os lugares de pegação, as saunas, os dark-rooms, etc... Mas, acredito piamente que, acima de qualquer coisa, é o travestismo que representa como um todo essa cultura. Porque ele encarna a diversidade sexual por si só. Você não concorda comigo?  

Beijo a tod@s!



Escrito por Flor do Asfalto às 08h03 PM
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