A teoria queer e os intersex: experincias invisveis de corpos des-feitos

 

A teoria queer emergiu como uma corrente terica que colocou em xeque as formas correntes de compreenso das identidades sociais no mesmo perodo em que a problemtica dos intersex se tornou socialmente visvel. Apesar disso, a reflexo queer sobre os intersex muito recente. Os intersex impem reflexes sobre experincias invisveis, paradoxos identitrios e os limites do que compreendemos como humano. Neste artigo, exploro as diferentes definies sobre quem so os intersex, como a teoria queer lida com eles e, concluo com uma reflexo sobre a experincia corporal dos sujeitos marcados como intersex.

Ndia Perez Pino

 

Experincias invisveis

Tornar visvel a experincia de algum invisibilizado socialmente, ou melhor, de uma identidade marcada como abjeta e/ou estigmatizada, seria suficiente para escrever sua histria? Segundo a historiadora e terica feminista Joan W. Scott (1998), o caminho que parte da identidade como auto-evidente e busca retraar sua histria constitui um procedimento terico equivocado. Embora tenha sido considerado durante muito tempo um procedimento exitoso para aqueles empenhados em escrever as histrias das diferenas socialmente construdas, essa estratgia como "porto seguro" das explicaes pode resvalar para o oposto: de uma tentativa construcionista pode recair no essencialismo que toma como dadas identidades sociais, o que terminaria por invisibilizar os processos que constituram esses sujeitos.

Os estudos que partem das identidades e voltam-se para a reconstituio de suas histrias as encaram como fixas e, portanto, tomam como ponto de partida da investigao o que deveria ser o de chegada. Para Scott, a experincia no deve ser o ponto de partida da explicao, antes o que devemos explicar, isso porque so as experincias que constituem os sujeitos e no os sujeitos que tm experincias. Um novo procedimento terico- metodolgico que problematize as identidades por meio de uma reconstituio e anlise das experincias dos sujeitos em questo permite problematizar no as identidades, mas os processos sociais envolvidos em sua construo.1

Os intersex constituem mais uma daquelas identidades que associamos invisibilidade, pois sobre eles pouco se sabe e pouco se fala. A maior prova do desconhecimento, do silncio ou, nas palavras de Mariza Corra (2004), "do segredo" em torno da condio intersex, que apenas recentemente o assunto deixou de ser restrito aos saberes mdicos e biolgicos sendo progressivamente incorporado pelas discusses sociolgicas, antropolgicas, pela crtica feminista e pelos estudos queer. A intersexualidade suscita importantes reflexes sobre os paradoxos identitrios quase invisveis, propiciando anlises sobre a construo do corpo sexuado, seus significados sociais e polticos, assim como sobre o processo de normalizao e controle social no apenas dos intersex, mas tambm de todos os corpos.

Quem so os intersex? Ao buscar a resposta, o que se encontra um emaranhado de definies vindas de diferentes sujeitos e de diferentes discursos, como os ativismos intersex e a perspectiva da medicina. Tentar resolver os impasses acerca da definio mais correta talvez no seja o melhor caminho, justamente porque na indefinio do termo que podemos analisar os muitos significados atribudos aos intersex.

Intersex um termo de origem mdica que foi incorporado pelos ativismos para designar as pessoas que nascem com corpos que no se encaixam naquilo que entendemos por corpos masculinos ou femininos. Segundo a ISNA2, intersex uma definio geral usada para explicar a variedade de condies nas quais as pessoas nascem com rgos reprodutivos e anatomias sexuais que no se encaixam na tpica definio de masculino ou feminino.3 So corpos que destoam de nossos parmetros culturais binrios, que embaralham e causam estranheza para aqueles que os v ou que no se enquadram no que Susan Bordo chama de representaes de corpos inteligveis que "abrange nossas representaes cientficas, filosficas e estticas sobre o corpo nossa concepo cultural de corpo, que inclui normas de beleza, modelos de sade e assim por diante" (Bordo, 1997:33). So corpos que deslizam nas representaes do que se considera como verdadeiramente humano, situando-se nos interstcios entre o que normal e o que patolgico. Esta "no-humanidade" ou "anormalidade" justificar as intervenes mdicas com o intuito de adequ-lo ao ideal do dimorfismo sexual.

muito comum associao do intersex com o hermafrodita, pessoa que possui os dois sexos. Segundo Mauro Cabral, ativista intersex e pesquisador da temtica, essa associao presente em nosso imaginrio cultural oriunda das artes e da mitologia, mas no condiz com a realidade do corpo intersex, sendo que o conceito chave para entender a intersexualidade a variedade, j que o corpo intersex no encerra um corpo nico, mas um conjunto amplo de corporalidades possveis (Cabral & Benzur, 2005:284) Continua...

A teoria queer e os intersex

Os estudos queer emergem na dcada de 1980 como uma corrente terica que colocou em xeque as formas correntes de compreender as identidades sociais. Descendendo teoricamente dos estudos gays e lsbicos, da teoria feminista, da sociologia do desvio norte-americana e dos ps-estruturalismo francs, a teoria queer surge em um momento de reavaliao crtica da poltica de identidades.6 Assim, busca evidenciar como conhecimentos e prticas sexualizam corpos, desejos, identidades e instituies sociais numa organizao fundada na heterossexualidade compulsria (obrigao social de se relacionar amorosa e sexualmente com pessoas do sexo oposto) e na heteronormatividade (enquadramento de todas as relaes mesmo as supostamente inaceitveis entre pessoas do mesmo sexo em um binarismo de gnero que organiza suas prticas, atos e desejos a partir do modelo do casal heterossexual reprodutivo).

Embora no possa ser definida como um todo nico, j que em seu interior h divergncias e diferenas, e querer unific-las contraria seus objetivos polticos (Pereira, 2006), a teoria queer pode ser compreendida a partir das questes que a originaram e as que, atualmente, se tornaram seu foco. O termo queer pode ser traduzido como esquisito, anormal, excntrico e tambm utilizado em tons depreciativos e homofbicos para designar gays e lsbicas. Segundo Annemarie Jagose (1996), o termo faz parte do vocabulrio semntico para entender a homossexualidade desde o sculo XIX e, recentemente, ganhou significado poltico pela incorporao terica e adoo pelos movimentos sociais. Atualmente, usado como um conceito guarda-chuva que abrange a coalizo da cultura sexual marginalizada, que se auto-identifica como queer, outras vezes para descrever a nascente teoria que tem se desenvolvido distante dos estudos mais tradicionais sobre gays e lsbicas. No entanto, o termo se caracteriza pela indefinio, elasticidade e abrangncia, o que, para Guacira Lopes Louro (2001:546), representa "claramente a diferena que no quer ser assimilada ou tolerada, e, portanto, sua forma de ao muito mais transgressiva e perturbadora".

A teoria queer pensa os sujeitos e as prticas sexuais que ultrapassam a oposio homossexual/heterossexual, mulher/ homem, apontando para a variedade e diversidade das subjetivaes e das prticas que no se enquadram no que Judith Butler (2003:48) chama de gneros inteligveis, "aqueles que mantm e instituem relaes de coerncia e continuidade entre o sexo, gnero, desejo e prtica sexual". O queer descreve os gestos ou modelos analticos que mostram as incoerncias da suposta relao estvel, revelando que a heterossexualidade no natural, antes efeito do poder, do controle e da regulao social.

Assim, a teoria queer tem por objeto os sujeitos que no se enquadram nas matrizes de inteligibilidade de gnero. No entanto, as identidades sexuais "transgressoras" no so seu nico foco, pois ela interroga os processos sociais que produzem, reconhecem, naturalizam e sustentam as identidades. Sua promessa poltica reside na crtica aos mltiplos binarismos e aparentes antagonismos sociais expressos em categorias que incluem raa, gnero, classe, nacionalidade e religio, todas no apenas somadas, mas necessariamente relacionadas com a sexualidade (Eng et alii, 2005). Dispensa ateno aos indivduos que no se conformam s regras e, portanto, vivem nas zonas de abjeo, lugares nos quais sua prpria humanidade contestada, exatamente por no corresponder aos ideais normativos do humano. A estratgia do queer politizar a abjeo, impulsionar sua resignificao com a finalidade de criar estratgias de sobrevivncia para que as vidas queer sejam legveis, valorizadas, merecedoras de apoio e de reconhecimento (Butler, 2002:47).

Muitas vezes, a teoria queer interpretada como aquela que subverte, questiona, des-constri, pluraliza as identidades. Embora esses termos pertenam ao vocabulrio comumente usado para definir suas caractersticas, isso no significa desconsiderar as identidades ou muito menos afirmar que possvel viver sem elas. O chamado para a "desconstruo" um procedimento terico e metodolgico que tem por finalidade pensar os processos sociais e histricos que criam e naturalizam as identidades e as relaes de poder que as constituem. Dessa maneira, como aponta Jagose, o termo mais adequado para o procedimento terico queer no desconstruo, antes "desnaturalizao" das identidades. Continua...

Leia o dossi completo em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332007000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Leia tambm; Teoria Queer: Uma poltica ps-identitria para a educao em: http://www.antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=1031



Escrito por Flor do Asfalto s 07h24 PM
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Boneca Sai da Caixa

"Boneca Sai da Caixa" o nome da exposio fotogrfica realizada pelos monitores do Laboratrio de Fotografia da Faculdade de Comunicao da UFBA, com vernissage marcado para o dia 3 de Abril s 19 horas, em Salvador, BA.

 Imagens de corpos migrantes, figuraes que retratam identidades nmades, sem fronteiras claras, que se recusam s classificaes e aos modos socialmente aceitos de pensamento e de conduta. Corpos sexuados que posam para uma cmara amvel, que convida a um recorrido no convencional. Fotos que mostram corpos de interface, corpos como mosaicos de peas desmontveis, brinquedos de armar...

Boneca sai da caixa! Quase uma ordem para sair a brincar um jogo que nem sempre risonho, por que mobiliza tambm intolerncia, pr-conceito e  violncia.

                                                      

As imagens desta mostra se comprometem com a pardia, com sua fora poltica, com belezas deslocadas, com corpos em estado de traduo permanente. Os retratos deste jogo tm a possibilidade de oferecer pistas para pensar formas alternativas de estar no mundo, de amar, de ser viajantes do desejo.

                                                                          

                                    

 

No preciso ir longe nem sair de mala e cuia. Podemos ser nmades sem sair de casa, apenas jogando o jogo das mscaras, do faz de conta, como neste pequeno teatro montado em paralelo Parada Gay de Salvador do ano passado. Atores cujas fantasias - cheias de detalhes, brilhos, lantejoulas e paets nos dizem que o verdadeiro est na aparncia. Posaram sem pudores pelo prazer de anunciar que so o que escolheram ser e que mscaras no so caretas. Poderemos, algum dia, olhar para essas fotos como retratos das diferenas e no como desvios?

                                       

Pelo direito de ser, de existir e, principalmente, de brincar para alm do dia da Parada Gay, as imagens produzidas por estes jovens fotgrafos podem ser visitadas todos os dias, entre 3 e 30 de abril, das 8 s 19 horas no salo de artes do Instituto Cervantes, situado na Ladeira da Barra, cidade de Salvador, Bahia. A exposio faz parte da mostra de cinema Possveis Sexualidades.

                                       

Exposio Fotogrfica "Boneca sai da Caixa.
Onde: Instituto Cervantes, Ladeira da Barra. Salvador, Bahia, Brasil.
Quando: 03 a 30 de abril das 8 s 19 horas.
Realizao: Laboratrio de fotografia da Facom - UFBA
Site: http://www.labfoto.ufba.br/



Escrito por Flor do Asfalto s 03h17 PM
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