Algumas Histrias Sobre Hermafroditas

Escultura Grega - Hermafrodita Adormecido - Museo do Louvre - Paris

Os hermafroditas sempre existiram, apesar de durante sculos a medicina negar isso. H uma grande variedade de pinturas e esttuas gregas sobre o tema. Os gregos pareciam ser fascinados pelo tema e explicavam o fenmeno atravs da unio do filho de Hermes com a Afodite, que teria dado origem a um ser metade homem, metade mulher (ilustrando este texto, coloquei duas esttuas gregas sobre o tema). Mas os primeiros relatos histricos ocorrem a partir da Idade Mdia.


Em uma delas o abade do mosteiro de Santa Genoveva descobriu que faltava dinheiro no tesouro do mosteiro e as suspeitas recaram sobre um jovem que morava l desde os 12 anos. O abade ordenou que fosse desnudado e aoitado. O rapaz se desesperou com a pena e pediu misericrdia. Disse que tinha nascido homem, mas que com o tempo percebera que era mulher. Nisso o verdadeiro ladro foi pego. O abade pediu o exame de mdicos, que chegaram concluso de que se tratava, de fato, de uma mulher. Ela passou a se vestir de mulher, casou-se e teve dois filhos.
Casos como esse, como final feliz, so a excesso quando se trata de hermafroditas.


Um caso que escandalizou a Frana no sculo XVII foi o de Marie le Marcis.
Ela nascera mulher, de uma famlia pobre, que a colocou para trabalhar como camareira. Em das casas em que trabalhou, teve que dividir a cama com uma enfermeira viva, Jeanne Lefbure. Na intimidade da noite, revelou a ela a curiosidade de sua sexualidade e as duas comearam a se relacionar.
O amor foi crescendo e as duas decidiram se casar. Elas foram falar com Guillaume, pai de Marie, mas ela tentou convenc-las a mudar de opinio. Elas foram ento procurar os parentes de Jeanne, que as aconselharam a consultar a penitenciria de Rouen. Para viajar, Marie se vestiu de homem e passou a se chamar Marin.
As duas foram presas assim que se descobriu o caso e levadas a um tribunal. O juiz se viu sem saber o que fazer j que, apesar dos sinais aparentes de feminilidade, as duas declaravam que Marie era na verdade um homem. A viva chegou a declarar inclusive que o seu sexo era perfeitamente capaz de realizar os atos maritais e que Marie, inclusive a satisfazia mais do que seu antigo marido.
Uma junta de especialistas foi chamada e conclui que Maria no tinha nenhum sinal de virilidade.
No julgamento, Marie reclamou que os supostos especialistas no haviam examinado seu sexo. Mas o processo estava encerrado e as duas foram entregues Cmara do Conselho.
O procurador do rei pediu ambas fossem condenadas, declarando-se culpadas com a cabea e os ps descobertos, diante de uma igreja. Depois Marie seria queimada viva e seus bens confiscados. Jeanne assistiria execuo de sua cmplice e depois seria aoitada e expulsa da regio.
Entretanto, antes que as penas fossem aplicadas, elas foram levadas ao Parlamento de Rouen, que pediu um novo exame de uma equipe de especialistas composta por 10 doutores em medicina, dois praticantes e duas parteiras.
Marie foi examinada e a equipe declarou que no encontrou nela qualquer trao feminino, mas um dos mdicos se revoltou com o exame superficial, j que a comisso havia se contentado com exames externos alegando que seria indecente apalpar o sexo da acusada. Mesmo diante da hojeriza dos colegas, ele examinou Marie e percebeu que ela era viril. Foi a salvao das duas, que foram inocentadas. Marie foi orientada a continuar se vestindo de mulher at os 25 anos e foi proibida de manter relaes sexuais com qualquer pessoa, sob pena de morte.


Pouco tempo depois, uma disputa por poder revelou outro famoso famoso caso de hermafroditismo na Frana.
Nessa poca a abadessa do Convento das Filhas de Deus cedeu seus benefcios eclesisticos sobrinha, senhorita dAppremont. Mas havia uma outra pretendente ao cargo, irm Damilly, que, em sua ofensiva, acusou dApremont de ser hermafrodita.
O advogado de defesa alegou a lei de Longi tempori preascriptione, segundo a qual no se deve perturbar aqueles que esto de boa f, na posse de algo por mais de 20 anos. A freira possua sua feminilidade h mais de 50 anos e, portanto, seu sexo no poderia ser questionado. Alm disso, a religiosa se opunha a qualquer exame: No h nada de mais vergonhoso que este exame para o qual nem a noite tem suficiente escurido, nem a natureza suficientes vus".
O caso foi levado corte eclesistica de Chartres e se recorreu apenas a testemunhos de pessoas que diziam ter feito sexo com a religiosa. Como consequncia, dAppremont foi considerada culpada de abusar dos dois sexos e condenada a ser enforcada e depois queimada.
O advogado da condenada apelou e conseguiu que a freira fosse examinada por especialistas, que concluiram que dAppremont tinha os dois sexos. Ela foi, ento, condenada a ser presa e aoitada e todos os seus bens foram confiscados.


Outtro caso que angariou atenes na Frana e serviu de exemplo por parte dos iluministas, de que era necessria uma era de razo foi o Jean-Baptiste Grandjean. Ele nasceu mulher, com o nome de Claudine, mas aos 14 anos comeou a perceber alteraes no s fsicas, mas tambm emocionais. Ela s se interessava por moas. A pedido do pai, foi se confessar com um padre, que disse que ela deveria se vestir de homem, pois continuar se vestindo de mulher seria cometer pecado contra a religio.
Assim Claudine virou Jean-Baptiste e chamou a ateno de todas as moas da regio. A primeira a manter relaes com ele foi uma tal de Legrand, que seria fatal para o hermafrodita.
Algum tempo depois ele conheceu Franoise Lambert e se casou com ela. Quis um destino que um dia a esposa se encontrasse com a antiga amante do marido, que a alertou para o fato de que seu esposo era um hermafrodita.
A mulher consultou um confessor, que a aconselhou a no ter mais intimidades com o marido at que o caso fosse esclarecido. O casal ficou de visitar o Vigrio, mas antes que isso ocorresse, Legrand j havia espalhado para todos o caso.
A histria chegou ao ouvido do Procurador, que ordenou a priso de Jean-Bapitiste e posterior exame.
Uma comisso designada concluiu que, embora tivesse traos de virilidade, a pessoa em questo era uma mulher.
Grandjena foi condenado por profanar o sagrado sacramento do casamento. Seri exposto em praa pblica por trs dias, aoitado e ficaria em priso perptua.
O rapaz apelou ao parlamento e passou a ser defendido pelo famoso advogado Verneil. Este analisou melhor o relatrio dos especialistas e concluiu que seu cliente tinha sexualidade indefinida. Ele alegou que seu cliente tinha presuno de boa-f, o que atenuava o delito.
O parlamento admitiu a argumentao e absorveu o ru, mas tambm anulou seu casamento e impediu-o de casar novamente. Foi o ltimo caso de hermafrodita levado aos tribunais

Nos dias de hoje ns hermafroditas, intersexos, travestis e transexuais no somos mais condenados a morte fsica, hoje nos condenam morte social, invisibilidade e patologia.

Beijos a tod@s!

Claudia Wonder

dados: ivancarlo.blogspot.com



Escrito por Flor do Asfalto s 01h00 PM
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