Da Escravidão à ditadura dos corpos

Por Irina Bacci

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O passado, presente e quiçá, o futuro no Brasil parece ser permeado pelas mesmas vivências e infelizmente, comuns, violações dos direitos humanos. Da escravidão aos dias da atual democracia brasileira, observamos que nossa história está repleta de episódios onde somente os atores são trocados. Desde a chegada dos colonizadores no país, a violação dos direitos humanos, ainda que não entendida naquele contexto desta forma, pois o conceito de direitos humanos surgiu com a revolução francesa, é fato na sociedade, como parte integrante da herança colonial, escravocrata, machista, racista e discriminatória. Podemos comparar diversos episódios históricos do país com os dias de hoje e quem há de dizer que não há similaridade? Ou ainda, quem há de ter coragem em assumir que realmente a escravidão e a ditadura acabaram?

Podemos começar com recentes episódios como a ditadura e ainda que ela tenha acabado, será mesmo que estamos livres de direito e de fato? Será que vivemos realmente em uma democracia? Será que vivemos em uma sociedade realmente segura e justa? Numa sociedade tão desigual, onde viver a cidadania plena é privilégio de tão poucos, com certeza nos aponta uma sociedade onde o conceito de democracia é equivocado e nos enganamos em pensar que realmente temos a liberdade de ir e vir. Hoje a ditadura, obviamente, não é prática e tão pouco é o regime político brasileiro, mas subjetivamente, as práticas e conseqüências da ditadura ainda permeiam as cabeças e ações da nossa sociedade excludente, machista, racista e homofóbica.

O genocídio da juventude, sobretudo a negra, o assassinato impune das mulheres e a homofobia sanguinária são exemplos de que as conseqüências e marcas da ditadura, ainda exterminam seus filhos e filhas. A cidadania plena de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais continua sendo roubada caracterizando um processo de tortura a essas cidadãs e cidadãos de direito que não podem viver plenamente numa sociedade que não aceita e tão pouco respeita o livre direito ao amor, ao corpo e a felicidade. A esses filhos e filhas, o Estado Brasileiro prefere, ainda que com algumas ações, mantê-los na condição de cidadãs e cidadãos de segunda categoria e isto, não seria tortura? Negar-lhes o direito pleno e incondicional de serem livres, não é remontar as bases da ditadura?

Talvez nos dias hoje, não possamos afirmar que vivemos em uma sociedade escravista, mas será que a vivência da singularidade de nossos corpos não nos leva a uma forma de escravidão? Será que a sensação do escravo negro ao receber a liberdade pela Lei dos Sexagenários não é a mesma sensação da transexual ao conseguir adequar seu corpo na adultez? Fico imaginando o que se passou pela cabeça desses escravos ao saber que estavam livres com 60 anos de idade e o que fariam com a sua liberdade quando velhos?

Não será igual ao que passa na cabeça de uma transexual que consegue (quando consegue) sua cirurgia de readequação após perder sua adolescência, juventude e boa parte da fase adulta? O que essas pessoas farão com suas novas identidades sem tê-las vividos quando jovens? Será que o Estado Brasileiro não as está aprisionando-as, escravizando-as em seus corpos não desejados? E ainda pensando na história, mesmo que consideremos avanço, será que o processo transexualizador do SUS, não seja tão somente uma alforria para poucos? As que têm dinheiro para comprar sua liberdade? E ou as que têm sorte de serem laudadas como transexuais pelo saber médico? Não será tal como se submeter à vontade do senhor branco em alforriar seu escravo? Será mesmo que é o saber médico que nomeia a transexualidade?

E indo mais além, se considerarmos as travestis, talvez possamos compará-las com aqueles escravos considerados rebeldes e indisciplinados pelos senhores brancos, afinal como eles, elas também não se submetem à ordem social, pelo simples fato de não seguirem a normativa dos corpos e são, por natureza, subversivas, pois rompem os padrões de gênero e a lógica dos corpos binários, masculinos ou femininos e a elas, só restam a lei Áurea. Por fim, só espero que este dia não chegue tão tarde como chegou aos negros, pois senão os senhores brancos, irão se queixar das políticas afirmativas dizendo que suas gerações não tem culpa da escravidão e da ditadura dos corpos!

Irina Bacci , formada em fisioterapia e especialista em administração de sistemas de saúde, é feminista, integra o Coletivo de Feministas Lébicas e é coordenadora do Centro de Referência da Diversidade

 



Escrito por Flor do Asfalto s 01h11 PM
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