Após 20 anos uma transexual posa para a revista Playboy

Mitos e verdades sobre a trajetória de mulheres trans na Playboy

Por Neto Lucon
DasBancas

Despir-se para uma revista masculina virou praticamente trabalho conseguinte para as beldades que participam de reality shows. Dia 23 de Março de 2011: uma ex-bbb promete esquentar novamente o mercado de revistas com um quê de novidade. Trata-se de Ariadna Thalia Arantes, primeira mulher transexual operada a entrar em um reality show e quarta a estrelar uma edição da revista Playboy, a mais conceituada do gênero.

Foram 20 anos desde o último ensaio de uma transexual. E, ao contrário do que muita gente pensa e é noticiado, não foi Roberta Close a última trans a sair nua nas páginas da publicação brasileira. Em fevereiro de 1991 (capa da apresentadora Karmita Medeiros), uma modelo italiana chamada Tula (Caroline) Cossey esteve nas páginas internas com o título: “O Fenômeno que enganou até Bond, James Bond”, em menção ao filme que estrelou em 1981 com Roger Moore.

No ensaio de seis páginas e doze fotos, realizado pelo fotógrafo Byron Newman, a trans aparece de cabelos esvoaçantes, olhos claros e protagoniza um striptease. A revista resumiu a trajetória da atriz e terminou dizendo “Tula se considera uma mulher realizada. Dissemos mulher? Bem, e você ainda tem dúvida?”


Caroline Cossey (Tula)

Na mesma edição, como se a presença de transgêneros estivesse tornando-se comum para a Playboy, havia também uma foto de Roberta Close na seção “Melhores do Ano”. Ou seja, duas transexuais nuas estavam retratadas com a maior naturalidade na revista. Mas, apesar disso, o sonho da “coelhinha trans” ficou esquecida naquela publicação. Foi a última vez, a última participação... até chegar Ariadna.

Dá um close nelas

Pioneira a propagar a beleza trans no Brasil, antes mesmo de qualquer intervenção cirúrgica, Roberta Close estreou na Playboy em maio de 84, após ter sido vista na coluna Click (capa com Tânia Alves), causando frisson em todo o país. Tanto foi que, três meses após o primeiro ensaio, o fenômeno estava novamente nua, com direito a caderno especial. “Primeiro foi uma coisa pequena, depois tomou uma proporção muito grande, aquela coisa toda da edição esgotada. Todo mundo começou a se dar conta de quem era Roberta Close”, declarou a modelo à revista Sexy de 1993.

“A musa da transguarda sexual do Brasil”, “A mulher mais bonita do Brasil é homem”, “O maior enigma sensual do Brasil”, “Roberta Close também é democracia” foram alguns dos títulos oferecidos a ela: um fenômeno de beleza.

Roberta-Close-Playboy-1984

Roberta-Close-1984-a

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Roberta na PBY (“atendendo a pedidos!”) e na extinta revista Manchete

Sua presença na mídia – no auge da rivalidade Rio x São Paulo - motivou marketeiros a fabricarem outra bela trans que seria rival, a travesti paulista Thelma Lipp (1962-2004). Resultado: Thelma também se tornou coelhinha em outubro de 84 (capa de Betty Faria). Enquanto Roberta fazia a linha femme fatale, Thelma era pura meiguice, características transferidas aos ensaios, todos elogiadíssimos através de cartas. Após a cirurgia de redesignação sexual, Close exibiu o resultado e protagonizou o terceiro – e último – ensaio para a Playboy, em março de 1990 (capa Luma de Oliveira). Intitulado: “O final feliz”, os cliques do fotografado Bob Wolfenson contaram com poses mais ousadas e livres. Roberta posou posteriormente para a Sexy e Ele&Ela.

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Década de 1990: capas pós-cirurgia

Retrocesso

De lá pra cá pouquíssimas revistas apostaram na beleza trans. Em 2005, a travesti Bianca Soares, ex-casa dos artistas, posou nua para a revista Man (editora Gênero, ensaio feito por André Lima), e em 2009 a modelo Patrícia Araújo, que desfilou no Fashion Rio, desnudou-se para a revista A Gata da Hora. Embora os ensaios tenham ficado bonitos, ousados e artísticos, a repercussão foi modesta.

biancaman
Bianca Soares para a revista Man

Até a Playboy demonstrou estar bastante careta em 2010. Na edição de 35 anos da revista (com Cleo Pires na capa), dois jornalistas responsáveis por fazer listas colocaram Roberta e Thelma como os únicos “homens” a posarem nus para a revista. Algo espantoso, já que, em nenhum dos ensaios dos anos 80 e 90, tais termos foram empregados a elas. Eram sempre mitos, enigmas, fenômenos e maravilhosas, nunca utilizaram qualquer referência masculina.

A lacuna de travestis e transexuais em publicações masculinas do início dos anos 90 até os dias atuais pode explicada pela pouca abordagem positiva da categoria. Saíram as trans dos shows de calouro dos anos 80, e entraram uma novidade para o show televisivo dos anos 90, as drags, com apelo decisivo e humorado da sétima arte. Pouco abordadas como artistas, as travestis e transexuais começaram a ser exploradas em notícias correlacionadas a escândalos, pegadinhas, freak shows e páginas policiais. Nada muito sedutor.

Na capa?

Assim como suas antecessoras, Ariadna não sairá na capa da revista regular, mensal, oficial, mas de um “especial” (uma prévia na chamadinha da revista mensal, com a ex-BBB Michelly, e em um extra feito somente para ela). De acordo com algumas fontes ligadas à publicação, a escolha é justificada pela política da Playboy internacional, que exige que apenas mulheres biológicas estampem a capa oficial, jamais homens, transexuais ou travestis.

Além do mais, a presença de uma transexual ou travesti deve ser muito bem explicada pela revista, tal como um pedido inegável dos leitores assíduos e curiosos. Isso pode ser comprovado ao ver capas de Roberta com chamadas do tipo “Atendendo a pedidos. Novas Fotos do Fenômeno Roberta Close” (abril de 1984), bem como a pesquisa da Internet sugerindo um ensaio com Ariadna. Na página oficial da Playboy, a ex-bbb venceu com 65% dos votos.

ariadna
Ariadna para o Paparazzo, pelas lentes de Marcos Serra Lima

Mas se não estampar a capa da revista oficial pode ser encarado como retrógrado, o fato de publicarem uma revista especial, somente com Ariadna é uma ousadia, um avanço. Qual motivo? Pensem: enquanto nas revistas com Roberta e Thelma os leitores tinham a desculpa de que as musas estavam apenas no recheio, que existiam outras mulheres ou até que compravam a revista pelas matérias, nesta, eles terão que comprar sem preconceitos e conscientes de que toda a publicação será composta somente por uma mulher transexual: 60 páginas de fotos e entrevista exclusiva. Algo novo e uma ousadia dos editores. É esperar para ver. As fotos são de Bico Stupakoff.

NUAS
> Anos 80: Roberta Close (Playboy), Thelma Lipp (Playboy), Claudia Wonder (Big Man Magazine)
> Anos 90: Roberta Close (Ele&Ela, Sexy), Tula Cossey (Playboy)
> Anos 2000: Bianca Soares (Man), Patrícia Araújo (A Gata da Hora)
> 2010: Ariadna Thalia (Playboy)



Escrito por Flor do Asfalto s 09h33 PM
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