Com 22 anos de carreira, Márcia Pantera faz fortes revelações sobre vida e trabalho de drag queen (parte 1)
Em entrevista exclusiva, Marcia Pantera diz que artistas atuais apostam mais em produção que em talento

Por Neto Lucon




O fenômeno drag queen explodiu nos anos 90. Um ano antes, em 89, uma representante da categoria já dava os primeiros passos no palco da Nostro Mondo e adiantava o que seria uma febre no universo LGBT. Márcia Pantera, negra, alta e de corpo atlético, desenhado pelas partidas de vôlei.

Inspirada na moda, performances e dublagens, a drag-felina, hoje com 41 anos, tornou-se musa de Alexandre Herchcovitch, alcançou a passarela ao lado de ícones da moda como Claudia Liz, protagonizou números memoráveis. E mais, garante ter sido a primeira drag queen a bater-cabelo no Brasil.

Neste ano, Marcia comemora mais um ano de carreira, data bastante significativa em um mercado pra lá rotatório e descartável. Em entrevista, revela detalhes de sua carreira e vida pessoal, bem como rivalidade entre artistas, vida amorosa, acidentes de trabalho, drags novatas, problemas com drogas e superação. “Hoje estou muito mais madura, feliz, nas nuvens.”

Masculino e atleta na vida pessoal, quando pensou pela primeira vez em se montar?

Foi quando entrei na Nostro Mondo e vi uma apresentação da Marcinha, uma travesti da Corintho (casa noturna da empresária Elisa Mascaro, conhecida pelos espetáculos bem elaborados). Linda, baixinha, cabelão cumprido até a cintura. Assisti ao espetáculo e me vi nela: Disse: “quero fazer isso!”

 

Em 89 não existiam referências de drags e a Marcinha já era travesti. Em algum momento pensou em ser trans?
Você tem que ter uma estrutura muito boa para ser travesti. Eu não tenho essa estrutura. Prefiro me montar, viver nessa transformação. Aliás, amo a transformação do Marcio para a Márcia. É o que amo fazer.

 

E a primeira vez que se montou profissionalmente?
Também na Nostro, em um concurso de novos talentos. Arrumei tudo e fiz um samba da Simone. Um sambão! Já tinha a Marcinha, que era uma negona, e apareceu eu. Na época, era mais malhada, jogava vôlei, tinha um corpão, e a reação foi maravilhosa. Foi uma delícia sentir a reação das pessoas, aqueles aplausos me pegaram. Falei: gosto disso.

A rivalidade entre drags é muito grande?
Muitas vezes a rivalidade não existe entre os artistas, é o povo que faz. É um que chega e fala “tal pessoa falou isso de você”, outra que chega e fala outra coisa. Mas é verdade que existe muita falsidade, uma querendo ser melhor que a outra, falando mal de outra no camarim. Mas acima de qualquer coisa é preciso ter talento. Não adianta você se cobrir de strass, se cobrir de brilho, investir em uma produção, falar mal da outra, se você não sabe segurar tudo isso no palco. É ter talento, carisma e simplicidade.

 

Em um mercado tão rotativo, qual é o segredo para se manter?
É amar o que se faz. Não faço uma apresentação apenas para mim, para as minhas amigas do camarim, nem para o dono da casa, faço para o público que está na casa. É pensar com carinho no público.

No começo, você usava as roupas do Alexandre Herchovic...
Ainda uso, ele é meu irmão.

 

Como surgiu essa amizade?
No começo as pessoas achavam que a gente era namorado, caso. Mas somos amigos, irmãos, nunca tivemos nada. A gente se conheceu na porta da Nostro Mondo e ele disse que fui meio antipática (risos). Acho que estava correndo com alguma coisa e ele tentou falar comigo. Na minha vida apareceram mil pessoas querendo me vestir, mas ninguém foi como ele. Chegou e falou: quero fazer uma roupa para você, marcou comigo, fui na casa dele e ele fez mesmo. Tenho um guarda-roupa histórico.

Da onde surgiu o Pantera?

Surgiu da época em que trabalhei com moda. Estava com a Claudia Liz, e conheci o irmão da Monique Evans, o Marcos Pantera, que era um modelo internacional. Era apaixonada por ele, fui ao camarim e disse: Ai, eu adoro você, acho você lindo, sou fã e perguntei se poderia pegar o Pantera do sobrenome dele. E ele falou “fique à vontade.”

 

Toda performática, você já teve alguns acidentes durante as apresentações. Teve algum que tenha marcado?

O acidente mais grave foi o da Blue Space. Foi em um domingo que implorei para o Vitor (dono da casa) fazer o show, pois o público estava uma delícia. O equipamento começou a girar, pegou meus dedos, enrolou nos meus braços, fiquei lá em cima, gritando. É claro que poderia ter ganhado muito dinheiro, mas assim que o Vitor veio falar comigo, já disse: “não vou processar”. Quando tive problemas com drogas, foi ele que me pagou clínica, tudo. O mais importante é que estou com saúde, estou bem, sem sequelas, com meu público e pessoas que me amam. O acidente foi um acidente, deixa pra lá.


Você disse que começou fazendo samba. Atualmente procura reciclar o repertório ou procura trazer um pouco das músicas antigas para os dias atuais?
Até posso trazer música antiga, pois muita gente não conhece. Mas noto que o público deu uma mudada, quer uma música mais louca e tal, e eu entrei nessa. Eu tô ali e estou junto para o que eles quiserem.

Quando você começou, não existia essa coisa de bate-cabelo...
Fui eu quem começou com o bate-cabelo, não existia. Sabe aquele giro do Michael Jackson? Estava com um cabelão longo e não estava de salto, e fiz um giro mais rápido e o cabelo abriu. Daí comecei a bater o cabelo, as bichas começaram a gritar, e foi uma loucura. Mas nem catei que aquilo fosse ser uma confusão. Hoje existe rainha do bate-cabelo, princesa, maior bate-cabelo, mas quem escolheu isso? Acho que só ajudei a abrir esse campo. Sei que fui a primeira drag a bater cabelo no Brasil, que sou a primeira do Brasil, isso tenho certeza.

Converso com artistas veteranos que trabalharam com noite e eles dizem que existe uma certa desvalorização no mercado, que falta trabalho. Você também nota isso?
Isso vem dos donos das boates. Existem algumas artistas antigas que estão sumidas porque as portas foram fechadas para elas. Mas será que o povo não gostaria também de ver isso na noite? Coloca bate-cabelo, mas também coloca algo com glamour, uma vedete, uma mistura. Qual é o problema de ter isso? Hoje infelizmente estão vendo mais produção que talento.
 

O que diria para quem quer começar a carreira de drag hoje?
 Nunca desista dos seus sonhos, mas tem que correr atrás, sempre com prazer, nunca de qualquer jeito. Em 10 shows que você vê hoje, vai ver a drag entrar, tirar a roupa, tirar toquinha e bater-cabelo. Não adianta comprar uma peruquinha e bater-cabelo no palco. É o que todas fazem hoje.

Já pensou em desistir?
Claro. Passei por uma fase que não tinha condições nenhuma, mas, ao mesmo tempo em que falava que não queria mais, isso era a minha vida. Se a Márcia tivesse saído da minha vida, eu tinha morrido, o Marcio já era. Acho que sempre tive essa força porque pensava: “A Márcia não pode acabar assim, o Márcio não vai deixar a Márcia acabar assim.”



Escrito por Flor do Asfalto s 11h24 AM
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